Mais Estranho que a Ficção

Direção: Marc Forster

Roteiro: Zach Helm

Elenco: Will Ferrell (Harold Crick), Maggie Gyllenhaal (Ana Pascal), Queen Latifah (Penny Escher), Emma Thompson (Kay Eiffel), Dustin Hoffman (Professor Jules Hilbert), Kristin Chenoweth (Anchorwoman), Tom Hulce (Dr. Cayly), Linda Hunt (Dra. Mittag-Leffler), Tony Hale (Dave), Denise Hughes (Carla)
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Duração: 113 min.

Gênero: Comédia/Drama





Minha vida com mimimi

Não suporto comédias românticas. Não é que eu não seja romântica, é que as “heroínas” da maioria desses filmes são chatas pra caralho. E se eu for totalmente sincera, o motivo real, único e verdadeiro, é que eu – GraçasaDeusPaiLouvadoIdolatradoAmém - não me identifico com elas.

Existe uma lista de poucas coisas que eu deixaria de fazer para ver um filme que estrele a Diane Keaton, Julia Roberts, Jennifer Lopes, Reese Whiterspoon, Mandy Moore, Jennifer Love Hewitt e Drew Barrymore (quem só está perdoada por E.T, Confissões de uma mente assassina e Garotos de Minha Vida). Na lista constam coisas como ser esmurrada no coração, comer sopa de vidro, pisar em vômito de cachorro em quanto eu estiver calçando meias. Essas coisas, bem, vocês têm idéia. Me chamem para assistir Serpentes a Bordo um milhão de vezes, mas não me chamem para assistir Um Amor para Recordar. Acho muito mais real o Samuel L. Jackson (REI!) matar cobras ouriçadas por ferormônio em um avião, que um bonitão casar com uma mina insossa porque ela está morrendo de câncer. Que um ricão casar com uma prostituta da Rodeo Drive. Que uma jornalista adulta voltar ao colégio e passar por adolescente e ela nunca foi beijada. Que a vozinha chata da Reese com o sotaque texano. E ver qualquer outra coisa dolorosa que estrele as Jennifers (Love Hewitt, Lopes, e agora, estendo meu convite à Aniston).

MAS, se eu sentir a mínima identificação com a politicamente incorreta mocinha... danou-se.

É isso que acontece com a Anna Pascal (Maggie Gyllenhaal), que tem uma tatuagem enorme no bracinho fininho, dona de uma padaria, pois acha que essa é a parte dela em tornar o mundo um lugar melhor, está tendo uma auditoria porque sonegou imposto de renda – não o imposto completo, só a parte designada às propagandas políticas, na qual ela explica em uma carta, junto com a sua declaração, carta que começa com “Querido Governo Chauvinista Capitalista”. Tá, não tenho uma tatuagem enorme no braço, pior ser dona de uma padaria, mas sou bem consciente quanto o que o dinheiro diz que faz com os meus impostos.

Mas, essa não é a estória de Anna Pascal, como fala a primeira frase do filme: “Essa é a história de um homem chamado Harold Crick e seu relógio de pulso”.

O filme é mais um da linha que os personagens principais sabem que vão morrer e o enredo gira em torno disso. O filme é uma inteligente dramédia, um perspicaz romansia.

Harold Crick (Will Ferrell no papel que o lança ao patamar de Jim Carrey, Robin Willians e outros atores que sabem maestrar BEM a comédia e a tragédia) é um homem solitário, que tem como parte mais humana do seu corpo, o seu relógio de pulso. Enquanto Harold Crick conta os passos até a parada de ônibus, o relógio adora quando ele corre, pois sente o vento bater em sua fronte de vidro. E é o relógio que fica de saco cheio da automatização de Harold e resolve agitar as coisas, parando e descontrolando a sua minuciosamente planejada rotina.

A vida de Harold é narrada por uma voz feminina, e isso não é feito deliberadamente, logo, entende-se que a vida ordinária dele é um livro, a autora narra, e sua vida vai ficar mais interessante quando – pasmem – ela narra que o simples ato do relógio parar vai levar à morte eminente do personagem principal.

Então, Harold enlouquece e vai procurar ajuda, primeiro com uma psiquiatra, pois ele ouve a narradora em sua cabeça, e ela o manda para um expert (o SEMPRE brilhante Dustin Hoffman) em literatura, para decifrar mais sobre o enredo. Um dos melhores diálogos do filme, é quando os dois sentam e tentam debater se a vida dele é um drama ou uma comédia, e puxa, quem já não pensou nisso.

Convencido que vai morrer e certo de que isso é o melhor para todo mundo, Harold, vai viver a vida que ele sempre quis, e não, não são coisas absurdas, ele vai comprar uma guitarra para aprender a tocar, pois ele nunca teve tempo, e se declara à Anna Pascal.

O filme é dirigido por Marc Forster (Em Busca da Terra do Nunca) traz referencias e homenagens claras à Kauffman (Brilho Eterno de uma mente sem lembraças). Sério, quem em sã consciência não faria uma homenagem à Kauffman? Eu daria o meu primeiro filho a ele.

Aqui, uma cena do filme que carrega um dos maiores mistérios já expostos na humanindade. "Por que as minas legais de vez em quando curtem um nerd?"


Minha Vida Sem Mim

My Life Without Me, Canadá/Espanha, 2003.
Direção e Roteiro: Isabel Coixet, baseada no conto Pretending the Bed is a Raft, de Nancy Kincaid.
Elenco: Sarah Polley, Amanda Plummer, Scott Speedman, Leonor Watling, Deborah Harry, Maria de Medeiros, Mark Ruffalo, Julian Richings, Jessica Amlee, Kenya Jo Kennedy, Alfred Molina.
Fotografia: Jean-Claude Larrieu. Montagem: Lisa Robison.
Direção de Arte: Carol Lavallee.
Música: Alfonso Vilallonga.
Canção: "Senza Fine", de Gino Paoli.
Figurinos: Katia Stano.
Produção: Esther García e Gordon McLennan. Site Oficial



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Ainda na linha de filmes que os personagens principais estão na eminência da morte, se o primeiro foi sobre o quarentão que já havia passado os melhores dias e queria aqueles bons e velhos tempos de volta, o segundo é sobre uma jovem garota que nem teve o tempo de aproveitar a vida plenamente e já tem de se despedir.

A maioria dos filmes sobre doenças terminais nos apresenta duas horas de incontáveis clichês – confrontos melodramáticos com amigos e familiares, a ceninha que a pessoa quase morre, mas tem um despertar, e todo mundo chora de alegria, a mudança repentina de atitude quando o portador da doença tem a ciência que vai morrer e não há nada que ele possa fazer a não ser escalar o Everest, viajar o mundo e encarnar o Calígula, a cena da morte, ou, o pior de tudo, a cena da cura milagrosa do último instante.

No filme escrito e dirigido por Isabel Coixet's, My Life Without Me (Minha Vida Sem Mim – não é excelente quando não temos uma tradução de título esdrúxula?), Ann (Sarah Polley) é uma bela jovem de 23 anos, casada com o primeiro namorado(o garoto que tirou as camisa para ela enxugar as lágrimas no show do Nirvana), mãe precoce de duas garotas adoráveis, trabalha como faxineira em um colégio, mora com o seu amado (e constantemente desempregado) marido e as duas filhas em um Trailer no quintal da mãe, nunca viajou, não terminou os estudos e agora descobre que tem um câncer inoperável no ovário. O pior de tudo é que não seria problema se ela fosse mais velha, mas devida a sua tenra idade, o seu metabolismo acelera a doença e sua expectativa de vida é de três meses.

Minha Vida Sem Mim consegue sair da trilha desses filmes clichês sobre a morte. O filme é triste, não tenha dúvidas, afinal, que filme sobre alguém que está morrendo é feliz? Mas, ele evita o sentimento depressivo que estes filmes nos propõe. Também está longe de ser uma afirmação simplista sobre os valores da vida. Acho que é porque a personagem principal, simplesmente se recusa a ser uma vítima.

Ann não teve uma maravilha de vida, e aos 23 anos descobre que vai morrer. Ao invés de sair por aí porralouqueanco, enfurecida, se derramando em lágrimas (o que eu definitivamente faria), pois acredito que a maioria das pessoas prefere a vida que a morte, mesmo que seja uma vida de merda, ela faz uma lista pequena e singela sobre as 10 coisas que ela tem que fazer antes de morrer, como por exemplo: gravar cassetes de aniversários para as filhas até que elas façam 18 anos, achar alguém apropriado para que o marido e as filhas fiquem bem quando ela partir, visitar o pai na prisão.
Esse é o perfil de uma jovem que, apesar da crise que passa, se recusa a sentar e ser alvo de pena e que tem como objetivo maior do que a sua felicidade no pouco tempo que tem, ela quer que a sua família esteja bem pelo tempo que lhes resta além dela, e por isso ela começa a planejar a vida sem ela.

Mas, ela também tem uma lista que tende ao lado egoísta. Ela quer saber como é dormir com outro homem (pois o seu marido foi primeiro e único), fazer com que alguém se apaixone por ela, mudar o cabelo, fazer as unhas com uma manicure profissional e falar o que pensa (tirando a parte que ela mantém da família e dos amigos a parte que ela vai morrer e que está tendo um caso). Antes de julgá-la, lembre-se que estamos falando de uma garota que nunca viajou, não terminou os estudos, e não teve nenhum feito importante.


Este foi o primeiro filme que vi com Mark Ruffalo (ele interpreta o amante de Ann) que está adorável em seu papel. O filme é produzido por Almodóvar e, nós, definitivamente, sentimos nuances de “Fala com Ela” ali, seja na brandura, beleza e naturalidade dos pensamentos de Ann para com ela, e ela somente:

"...Este é você, na chuva.
Nunca pensou que fosse fazer algo assim.
Você nunca se viu como - não sei como descreveria - como uma dessas pessoas que gostam de olhar a lua ou que passam horas contemplando as ondas ou o pôr-do-sol. Deve saber que tipo de pessoas estou falando. Talvez não saiba.
Seja como for, você gosta de ficar assim: lutando contra o frio, sentindo a água penetrar na sua camisa e a sensação do chão ficando fofo debaixo dos seus pés e do cheiro. Do som dá água batendo nas folhas e todas as coisas que estão nos livros que você não leu.
Esse é você.
Quem teria imaginado?
Você."

Ou na aparição de algum personagem excêntrico como a cabeleira que é a única fã do Milli Vanilli que resta no mundo inteiro, o médico que não consegue mais olhar no rosto das pessoas por ter que contar más notícias, e da garçonete cujo sonho e ganhar na Lotto para fazer cirurgias plásticas e se transformar na Cher.

Gosto desse filme pela diferença, pela apatia real que ele mostra. Ele não é um clichê.Nem todo mundo que descobre que tem câncer terminal tem dinheiro para viajar o mundo, nem todo mundo quer ser uma vítima, nem todo mundo quer fazer uma reviravolta e nem todo mundo que vive uma vida sem grandes feitos deve se sentir mal por isso. Nem todo mundo acha que o mundo inteiro deve parar no dia que pára de existir.

Beleza Americana

Título Original: American Beauty
Gênero: Comédia / Drama
Tempo de Duração: 121 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1999
Site Oficial: www.americanbeauty-thefilm.com
Estúdio: DreamWorks SKG
Distribuição: DreamWorks Distribution / UIP
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Alan Ball
Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Alan Ball e Stan Wlodkowski
Música: Thomas Newman e Pete Townshend
Direção de Fotografia: Conrad L. Hall
Desenho de Produção: Naomi Shohan
Figurino: Julie Weiss
Edição: Tariq Anwar e Christopher Greenbury


Elenco
Kevin Spacey (Lester Burham)
Annette Bening (Carolyn Burham)
Thora Birch (Jane Burham)
Wes Bentley (Ricky Fitts)
Mena Suvari (Angela Hayes)
Peter Gallagher (Buddy Kane)
Chris Cooper (Coronel Fitts)
Allison Janney (Barbara Fitts)


*****

Eu adoro Beleza Americana. Esse filme é uma comédia, certo? Eu, pelo menos, acho que é, apesar de me lembrar ser uma das poucas pessoas a rirem no cinema pelo absurdismo dos problemas do nosso anti-herói. O filme também é um drama, pela parte que ele – intrigantemente - nos sensibiliza. Em alguma maneira curiosa, aquele personagem confuso, imaturo, inseguro e quase pedófilo é envolvente.

O filme trata da história de um homem que está com medo de envelhecer, na verdade, DESAPARECER, seria a palavra mais apropriada. Essa é a parte que (alguns de nós) rejeitamos, mas, andando de mãos dadas com esse primeiro medo está o receio que ele tem em não conseguir enxergar a beleza nas pequenas coisas, à esperança no amor verdadeiro e que as pessoas mais próximas, percam totalmente respeito e admiração. Aí, não há como não empatizar com ele. Se você não consegue porque nunca experimentou esses sentimentos, me ligue, pois eu tenho muito que aprender com você.

Lester Burnham, o nosso anti-herói do filme, é interpretado por Kevin Spacey como o homem que é mal amado pela filha adolescente, ignorado pela mulher que vive acordada o American Dream, e dispensável ao trabalho que passou grande parte de sua vida exercendo.

Como ele fala logo nas primeiras frases do filme (o anti-herói é, também, narrador, ele narra o seu passado, não estando ciente pois ele narra suas memórias), “Meu nome é Lester Burnham. Em um ano, eu morrerei. De certa forma, eu já estou morto”. Se você vê a comicidade que existe no personagem principal do filme falar nos primeiros minutos que ele vai morrer, me ligue, pois temos muito que conversar.

Em seguida, conhecemos a mulher dele, Carolyn, que tem mania de perfeição e projeção da “imagem de felicidade” (what the fuck???). Na primeira cena dela, ela está a cuidar do seu jardim de rosas chamadas “Beleza Americana” combinando, nada acidentalmente, as cores do alicate e dos sapatos de jardinagem. As rosas estarão presentes no filme inteiro. Depois, somos apresentados a Jane, a filha adolescente ácida que está juntando dinheiro para fazer uma cirurgia de implantes nos seios, quando ela CLARAMENTE não precisa disso. As duas, mulher e filha, se envergonham de Lester.

Tudo muda para o personagem principal, na noite que ele é quase obrigado a assistir a uma apresentação da filha no colégio. Ele vê e se apaixona por Angela, a melhor amiga dela. E o que se segue pode parecer, para alguns, como uma história da estirpe de Lolita, mas, na verdade, é sobre o redespertar da paixão para a vida. A menina foi só a faísca que ateou o fogo.

Angela não é a sua estrada para felicidade. É o catalisador da liberdade. Ela o liberta de anos de paralisia emocional. Ela o tira do ponto em que ele havia se petrificado e parado de sonhar, e o coloca em uma situação na qual ele deseja ganhar respeito, poder e beleza.

Paralelamente, Carolyn e Jane passam por seus próprios problemas amorosos. A mulher começa a ter um caso com a pessoa que é a sua versão masculina. Enquanto Jane descobre a sua ternura e delicadeza graças ao excêntrico, belo e novo vizinho da frente.

Ricky, o vizinho da frente, é, exatamente, o antagônico de Carolyn. Ele, para se proteger do pai , o Coronel Fitts, um militar rígido que o controla através de exames de drogas pela urina, projeta uma imagem de apatia, quando tudo o que ele vê é beleza e emoção.

Nenhum dos personagens é inteiramente mau ou bom, e essa é parte da beleza do filme. Eles são moldados pela sociedade de tal maneira que eles não podem ser eles mesmos. Lester, o inútil que vai mexer com a vida de todos eles. Carolyn, a perfeccionista insegura. Jane, a adolescente que esconde a sua doçura por de trás da acidez. Ricky, o anestesiado altamente sensível. Pai do Ricky, o coronel gay. Angela, que é conhecida por todos na escola como puta, por preferir mentir a falar que é virgem. Por isso o filme é intitulado depois de uma linda rosa sem odor e sem espinhos, metáfora do vazio do americano comum que tenta mostrar mais do que parece ser. E nada é o que parece ser.

As performances dos atores dançam com harmonia perante as linhas da paródia e realismo. É lindo ver a evolução de Kevin Spacey no desenvolver do filme, como aquele que começou sem noção do que estava acontecendo ao redor dele, para aquele com o brilho nos olhos e riso no canto da boca por ser o único ciente de tudo. Aquele que faz as coisas mais incoerentes e irresponsáveis mas, pára de interpretar o papel que a sociedade exige que se submeta. E ele pode ter perdido tudo no final do filme, mas ele ganhou-se de volta.

Beleza Americana é o hino da rebelião de Lester Burnham. DE TODO Lester Burnham. Daquele que existe em mim e em você, que está ali coagido, entediado, menosprezado, querendo desencaixotar os LP’s do Led Zeppelin, trabalhar em um emprego que - apesar de parecer inóspito - te apraz, possuir as coisas que ama. Que quer passar o resto da vida que lhe resta vivo.

ONCE - Nem tudo que reluz precisa ser de ouro

Apenas uma vez



Título Original: Once
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 85 minutos
Ano de Lançamento (Irlanda): 2006
Site Oficial: www.foxsearchlight.com/once
Estúdio: Summit Entertainment / Samson Films
/ Radio Telefis Éireann / Bórd Scannán na hÉireann

Distribuição: Fox Searchlight Pictures / Imagem Filmes
Direção: John Carney
Roteiro: John Carney
Produção: Martina Niland
Música: Glen Hansard e Markéta Irglová

Fotografia: Tim Fleming
Desenho de Produção: Tamara Conboy

Direção de Arte: Riad Karin
Figurino: Tiziana Corvisieri
Edição: Paul Mullen


Elenco

Glen Hansard (Homem)
Markéta Inglová (Mulher)
Hugh Walsh (Timmy)
Geoff Minogue (Eamon)
Bill Hodnett (Pai do homem)
Danuse Ktrestova (Mãe da mulher)
Mal Whyte (Bill)
Niall Cleary (Bob)
Gerard Hendrick (Guitarrista)

Alastair Foley

Não, eu não gosto de musicais. Amo filmes, amo música, adoro prestar atenção nas trilhas sonoras, mas eu não suporto musicais. A minha simpatia não abraça personagens que abrem os braços e saem por aí cantando os seus nomes quando um simples “Prazer, Beltrana” é o suficiente.

Não, eu não gosto de musicais. “Mas, Sun, nem Moulin Rouge, Chicago?” Não e não. Nem o da estória de amor sobre o escritor que via a meretriz por quem ele era apaixonado cuspir sangue em plenos anos 30 do século passado e não sabia que aquilo era tuberculose. Nem sobre as brigas e conseqüentes, assassinatos dos egos da loira e da morena, tendo o grisalho como grande vencedor.

Não, eu não gosto de musicais. Mas tentei dar uma chance a eles. Fui de olhos, peitos e mente, todos abertos assistir ao Sweeney Todd por que é um filme do TIM BURTON, com o JOHNNY DEPP, HELENA BONHAM CARTER, que conta a história de um PSICOPATA, isto é, tinha tudo que adoro no cinema. Doze minutos após o início do filme, comecei a cavar buraquinhos na poltrona para conseguir me concentrar e continuar até o final.

Não, eu não gosto de musicais. Mas adoro filmes sobre biografias das bandas e músicos. The Wall (Pink Floyd por Alan Parker), Tommy (The Who por Ken Russel), Não estou lá (Dylan por Todd Haynes), No Direction Home (Dylan por Scorsese) e Shine a Light (Rolling Stones por Scorsese). Todos os filmes sobre música e músicos, repleta de trilha sonora e eu amo.

Vi o pôster de “Apenas uma vez” quando foi lançado, no cinema de arte. O cara bonitão com um violão e uma garota. Entortei a cabeça de lado, e li a pequena sinopse dizia algo como “Um músico de rua e uma jovem mãe encontram-se por acaso nas ruas de Dublin, nascendo entre eles um forte relacionamento. Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original”. E do lado ouço o comentário “Ah, escutei falar que esse filme é um musical excelente”. Olho o pôster e pondero sobre o meu trauma de longa data cultivado quanto ao gênero, e decido pelo título. Determino que “Apenas MAIS uma vez” eu vou tentar.

E, meu Deus, ainda bem que tentei.

A sinopse estava correta. Mas, nem de perto ela conseguiu descrever a atmosfera do filme. Simplicidade. É a única palavra que me vem à mente na hora de descrevê-la. A simplicidade sincera de uma criança ao responder uma indagação que você não tem a resposta, e estava lá, tão clara, tão clara que você não a enxergou. A simplicidade e sinceridade mágica e brilhante de criança.

Isso por que o diretor e roteirista John Carney foi a show de uma banda, The Frames, e pediu para o vocalista compor umas músicas para que a partir delas, ele escrevesse um roteiro. Alguns encontros, resultaram em dez canções e um roteiro de 60 páginas. 150 mil dólares (grande pra nós, nada para cinema) e 17 dias de filmagem depois, eles tinham um filme.

Os atores principais do filme, não são atores de forma alguma, são músicos. O músico irlandês (Glen Hansard ) e a pianista tcheca (Markéta Irglová) interpretaram um músico irlandês de rua que estava com o coração partido e voltou a morar com pai, ajudando-o a consertar aspirador de pó. E a pianista tcheca, é uma pianista tcheca, que mora na Irlanda com a mãe e uma filhinha pra cuidar, fazendo de um tudo para a sobrevivência delas. Esses músicos não decoraram os diálogos, apenas fizeram um Jam entre eles todas as vezes que se encontravam.

O resultado desse filme praticamente sem roteiro, barato, sem atores profissionais e personagens interpretando eles mesmos?

Nas palavras de Steven Spielberg:
"Apenas uma vez me deu inspiração o suficiente para o resto do ano!”

Bob Dylan gostou tanto do filme que convidou Glen Hansard e Markéta Irglová para fazerem o show de abertura em parte de sua turnê mundial.

E, para mim, o filme é fiel a simplicidade e sinceridade mágica, quase infantil, tão brilhante que fica difícil de enxegar, e a qual Hollywood tenta compensar gastando fortunas e filmes que não adicionam nada.

Nem tudo que reluz é ouro, diz o ditado. Mas nesse caso, nem tudo que é brilhante, precisa custar caro.



Por que eu não acho um desses na esquina de casa? Nem Apenas uma vez?



WALL-E...u te amo!

Há algo sobre robôs manifestando os bons sentimentos humanos que amolece o meu coração de ferro e sucateado de guerra. WALL-E é o descendente de R2-D2 e C3PO mais simpático e adorável que já apareceu na tela do cinema. Tão gracioso e cheio de vida que quase me fez ter um curto-circuito.

Demorei um pouco para digerir a idéia de assistir o filme, pois:

1 – é da Pixar – e eu não digo isso por ser uma empresa de animação, e por isso, direcionada ao público infantil, mas por causa de temas como Carros falantes, ratos na cozinha e super heróis aposentados, simplesmente não é do meu grado.

2 – é de ficção científica, gênero que eu também não curto muito, pois não sou, digamos, assim, uma Trekkie;

3 – sabia de antemão que o filme praticamente não tinha diálogos. E eu amo diálogos, eu adoro diálogos, venero diálogos, tanto que acho os filmes da Sofia Copolla aporrinhantes e assisti-los, para mim, é uma péssima forma de passar o tempo, pois não me sinto uma pessoa agradada pela história em si, nem engrandecida pelas informações, nem uma pessoa melhor. Minto, me sinto uma pessoa melhor sim, melhor que ela, pois eu escreveria melhores roteiros, escreveria roteiros com DIÁLOGOS e não com repetições de cenas entediantes Ad Infinitum.

WALL-E quase não apresenta conversas. Na verdade, os primeiros quarenta minutos do filme não contêm uma fala sequer, e, se não me engano, as únicas palavras do herói durante o filme inteiro, são: “WALL-E”, “EVA”, “Terra” e “Matriz”. Mas isso não significa que não existe uma narração no filme. A história é contada através de uma narrativa visual proposta através dos olhos do robozinho e o que ele vê é um poema cinematográfico obscuro e complexo, por isso, para alguns o filme é difícil de fluir.

O cenário inicial é uma cidade sombria de muitos prédios, lixo e nenhum habitante, mas com evidencias que lá, há muito tempo atrás, existiu civilização. O planeta com a população dizimada, é um tema que já atormentou Steven Spielberg em I.A. com o robozinho com síndrome de Pinocchio, Fracis Lawerence em Eu sou a lenda com Will Smith e Bob Marley, e o mal interpretado Shyamalan em Fim dos tempos com o cara malvado fazendo papel de bonzinho Mark Wahlberg e, agora, Andrew Stanton roteirizando e dirigindo WALL-E da Pixar.



WALL-E é o robô solitário morador do silencioso e pós-apocalíptico planeta Terra, abandonado por 700 anos para compactar em pequenos cubos a grande sujeira deixada pelos homens. Ele desenvolveu personalidade. Diferente de Marvin, robô depressivo do Guia dos Mochileiros das Galáxias, WALL-E é um robô inquisidor que tenta recolher esperança. Ele, então, coleta, coleciona e se cerca de reminiscências humanas: luzes natalinas, isqueiro, um cubo de Rubik, videotapes, objetos sem valor que ele transforma em companheiros queridos devido a sua solidão.

Ele está lá, recolhendo e compactando a sujeira como tem feito pelos últimos sete séculos, quando vê algo novo, e como faz tudo com que desperta a sua atenção, ele guarda. De volta à sua casa, ele assiste a Hello, Dolly! o que ele já deve ter provavelmente assistido algumas milhares de vezes, e com que ele aprendeu sobre dança, amor, andar de mãos dadas, fazendo com que ele espere alguém com quem possa compartilhar essas lições.

Após uma espera quase eterna, a oportunidade de amar aparece em um robô branco, reluzente, frio e distante, em forma de ovo, a EVA. O nosso pequeno WALL-E se apaixona perdidamente por ela, mas EVA que é um tanto hostil, enviada à Terra para checar sinais de vida e só pensa em fazer isso. Por mais que ele queira lhe mostrar tudo de lindo que ele encontrou no planeta coberto de lixo. WALL-E, mostra o que ele tem de mais peculiar, uma plantinha, e faz com que EVA guarde-a e se tranque em sua forma de ovo. Ela é chamada de volta à nave mãe para reportar suas descobertas, mas, felizmente, nosso herói de lata é super-insistente e completamente sem noção, então, quando ela parte, ele se agarra a ela.

Nada iria impedir esse robô de olhos grandes de estar com sua obra prima mecânica EVA. NADA. Nem centenas de milhares de anos-luz de viagem sideral. Nem robôs modernos, poderosos e malignos. Nem seres humanos em formato de gelatina que não conseguem mais pisar no chão, nem ter contato uns com os outros e que perderam a noção sobre o que é ter um planeta antes de seus ancestrais tivessem o destruído. NADA.

Sim, existe um bom número de lições importantes contidas no filme:

- Proteja o meio ambiente,

- não fique fissionado na tecnologia e esqueça as relações face-a-face com os seres humanos,

- observe as coisas ao seu redor com os próprios olhos e não através de uma tela.

Mas, fundamentalmente, WALL-E é uma das mais românticas histórias de amor postas em um filme, mesmo sendo da Pixar, mesmo sendo de ficção científica. Por isso, ri, chorei, vibrei, e quando a sessão acabou, quis me levantar e bater palmas e saudar como se fosse uma boa apresentação de uma banda de rock que eu gosto. Eu que não sou fã da Pixar, que não me agrado com o gênero de ficção científica e que sou louca por diálogos.

Quanto a mim, que assisti o filme semana passada, prestes a sair de cartaz, passei a semana toda abrindo a janela para escrever o post e fechando. Por que? Porque sabia que ia falhar em falar o quanto o filme é bom, pois ele foi muito inesperado, e quando me deparo com algo assim, tão novo e bonito, me faltam palavras para descrevê-lo, de vez em quando até o ar me falta. Eu que não me surpreendo fácil e sempre tenho algo a dizer.

WALL-E é um filme tão sensível, que eu não pude fazer nada alem de ser atraída para o mundo sombrio e solitário do robozinho à procura de amor. A Pixar criou um filme para ser apreciado por todas as idades e que com certeza entrará na lista como um dos melhores desenhos animados já criados. Sei que essas palavras parecem ser fortes, mas agracie-se a si mesmo e veja o filme, assim, você saberá como elas são totalmente justificadas.


Tudo vai ficar bem agora que ele é governador

Exterminador do Futuro II - O Julgamento Final


Direção: James Cameron

Roteiro: James Cameron, William Wisher Jr.

Elenco: Arnold Schwarzenegger (Exterminador T-800), Linda Hamilton (Sarah Connor), Edward Furlong (John Connor), Robert Patrick (T-1000), Earl Boen (Dr. Peter Silberman), Joe Morton (Dr. Miles Bennett Dyson)

Duração: 137 min.

Gênero: Ação/Ficção Científica


*****

Alguns filmes, para mim, são mais que objetos, são amigos, são família. E como toda boa família, alguns deles me deixaram traumas psicológicos para o resto da vida, ou pelo menos, até que o Alzheimer chegue.

Um deles é a convicção que não são alienígenas, nem a vingança da mãe natureza se transformando em madrasta por causa da destruição do meio ambiente, tampouco guerras e o homem sendo o lobo do homem que vai extinguir a raça humana, mas sim a MÁQUINA.

Desde 1991, a partir da primeira vez que assisti Exterminador do Futuro II – o Dia do Julgamento, cada avanço tecnológico quebra um pedacinho do meu coração. Toda vez que inventam um protótipo de robô, eu me tremo de medo pensando “puta que pariu,está prestes a ocorrer! Eles vão mandar sinais para os eletrodomésticos e logo, TODOS ESTAREMOS EM EMINÊNCIA DE EXTINÇÃO!”

Quase dez anos depois, estou mais madura, menos influenciável e mais paranóica, Matrix é lançado e fode tudo de novo. Pois agora, não só a máquina vai extinguir a gente, como “Elas vão se alimentar de nós. VÃO SE ALIMENTAR DE NÓS” e isso pode estar acontecendo nesse exato momento.

Diria que as similaridades dentre os filmes além dos dois se tratarem de trilogias sobre o apocalipse futurístico causado do embate homem versus máquina, está na atuação robótica convincente dos dois personagens principais (sendo apenas o Schwarzenegger um cyborg de verdade, o Reeves é só ruim mesmo), a aparência máscula das personagens femininas (Carrie-Anne Moss e Linda Hamilton), as cenas de perseguição de carro, os trajes de couro e óculos escuros, como o cabelo do cara mau que persegue o mocinho tá sempre muito bem na fita, e que, a última parte de ambas as trilogias é tão trevas que eu não me dispus a assistir.

A trilogia de o Exterminador do Futuro começa em 1984, quando o diretor (até então desconhecido por Piranhas 2 e desde então Alien, O Segredo do Abismo, Titanic, Dark Angel) James Cameron resolveu escrever e dirigir um filme sobre um cyborg T-800 (Schwarzenegger) enviado ao passado para matar Sarah Connor (Linda Hamilton) a mãe do homem que seria o líder da resistência humana. Um homem também é enviado para protegê-la, eles se envolvem romanticamente, e não só ele se sacrifica por ela, como ele é o pai do prospectivo líder da resistência. O primeiro filme foi inovador por tratar o tema apocalíptico homem-máquina e duscursar sobre viagem no tempo com um toque noir High-Tech.

E a seqüência? Bem, a seqüência veio para calar a boca de todo indivíduo que professar que “uma continuação nunca é tão boa quanto o filme original”. O fato é que poucas vezes uma continuação foi tão digna do sucesso do primeiro filme como fez O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final.

Dez anos após os acontecimentos do primeiro filme, um novo cyborg é enviado ao passado pelo supercomputador Skynet que luta contra a humanidade em 2029 (tá perto, moçada!). A máquina que volta no tempo tem a mesma função, liquidar a existência do líder da resistência humana no futuro, John Connor. Mas, se essa foi uma tarefa difícil na pré-concepção dele, imagina agora que ele é um pré-adolescente?

Pensando nisso, Skynet manda um modelo updated, mais avançado de ferro líquido para poder ser mais escrotão e adquirir a forma de tudo o que toca, o T-1000 (Robert Patrick). Em uma tentativa de garantir a sua existência no presente de 2029, o próprio John Connor envia ao passado o cyborg T-800, que uma vez quis matá-lo (Arnold Schwarzenegger com o personagem de sua vida) para protegê-lo enquanto era apenas um garoto.

John Connor (Edward Furlong, aliás, cadê o moço?) pré-líder da resistência, trata-se de um garoto que tem apenas 12 anos mas, já tem uma lista de gente grande de crimes como agressão, invasão e roubo na sua ficha polícial. Ele é criado por pais adotivos, pois sua mãe Sarah, está internada no sanatório devido às suas alucinações com robôs viajantes de tempo, se marombando desde o último incidente. Por isso ela vai dar um monte de trabalho para o T-800 versão sangue.bom .

E é esse garotinho malvado, que nem sequer imagina que um dia vai passar de bandido a herói, cheio das manhas da rua, que vai se afeiçoar ao cyborg T-800, fazendo com que cresça entre eles não só laços de afeição (porque T-800’s também têm coração), como ele vai enteirar o cyborg na arte da malandragem, ensinando um dos maiores jargões cinematográficos de todos os tempos.

Apesar de repetir (às vezes, repetir é amarrar) parte da história de “O Exterminador do Futuro”, a seqüência acrescenta novos elementos à história, apresenta mais detalhes sobre a guerra contra as máquinas e inverte o papel de Schwarzenegger, colocando o gigante austríaco do lado do bem. Outra mudança é que, com mais fama e mais dinheiro, James Cameron abandonou as cenas escuras e locações claustrofóbicas do filme de 84, para usar e abusar de cenas claras, espaços abertos e efeitos especiais sofisticados. Os efeitos foram criados pela empresa de George Lucas, a ILM (Industrial Light & Magic) e renderam o Oscar de Efeitos Visuais ao filme, que também levou Melhor Som, Melhor Efeitos Sonoros e Melhor Maquiagem. Em meio a tanta tecnologia, é interessante notar que a cena onde o T-1000 se transforma em Sarah Connor, para enganar John, e encontra a verdadeira Sarah, foi gravada utilizando a irmã gêmea de Linda Hamilton, Leslie Hamilton. Além disso, a cena onde o exterminador se transforma em um guarda do sanatório também foi filmada com dois irmãos gêmeos.

Além da presença marcante de Arnold Schwarzenegger que repete a excelente e eterna performance robótica do primeiro longa, e do convincente Robert Patrick como robô de ferro líquido, devemos destacar Linda Hamilton. A atriz, que se preparou para o filme fazendo exercícios de musculação diários e treinamento com armas de fogo, rouba a cena e mostra que a importância de Sarah não se limitava a ter um filho. Edward Furlong, sofreu o efeito Amy Winehouse e acabou não sendo chamado para continuar seu personagem em “O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas”. Tanto o garoto quanto o terceiro filme, caíram no esquecimento da audiência.

Uma curiosidade é que o nome no caminhão que transporta nitrogênio líquido indica a empresa fictícia “Benthic Petroleum”, que também aparece em “O Segredo do Abismo”, do mesmo James Cameron. Outra curiosidade é que a música “You Could be Mine”, do Guns n' Roses, foi composta especialmente para o filme por Izzy Stradlin e Axl Rose. A banda é homenageada em uma cena onde Schwarzenegger (fã confesso) retira uma escopeta de uma caixa de rosas.

“O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final” arrecadou US$ 490 milhões em todo mundo e foi capaz de recuperar seus custos de produção em apenas 12 dias de exibição, se tornando uma das maiores bilheterias da história. Afinal, trata-se de um thriller emocionante, divertido, com uma história digna de seu predecessor, que merece ser visto e re-visto.


E como nem eu (nem ninguém) poderia esquecer:

Hasta la vista, Baby.

"One day, you'll be cool!"

QUASE FAMOSOS

Título Original:Almost Famous

País de Origem: EUA

Ano de Lançamento: 2000

Tempo de Duração: 123 min

Diretor: Cameron Crowe

Roteiro: Cameron Crowe

Elenco: Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Jason Lee, Patrick Fugit, Zooey Deschanel, Fairuza Balk, Anna Paquin

*****

Se você ainda não vendeu sua alma para rock n’ roll, Quase Famosos vai fazer você selar o contrato. O filme é puro deleite. Tenho vontade de abraçar-me toda vez que o assisto. Ou subir na cama e cantar Baba O’rilley gritando todo ar dos meus pulmões.

Já nos créditos manuscritos de abertura, você sente como se estivesse fazendo um amigo. Você vê um garoto escrevendo no seu caderno, os posters e discos de bandas que ele gosta, os livros que ele lê e os objetos que ele coleciona. Começa a se tornar claro que é um filme sobre o mundo do rock, na visão de um garoto. Mas o filme não é só sobre um garoto. É sobre o período do começo dos anos 70, quando o idealismo do rock colide com a indústria.

Esse garoto, que o diretor já faz com quem nós nos identifiquemos quase instantaneamente, é William Miller (Patrick Fuqit em seu brilhante debute como o alterego de Cameron Crowe) o filho de uma professora universitária sufocadora e viúva que o fez pular três anos na escola e isso o fez ser isolado. Sua mãe também não aceita o demônio do rock n’ roll em casa. Ao completar 18 anos, Anita, a irmã mais velha de William, sai de casa para ser aeromoça. Ela disse que todas as razões dela para abandoná-los poderiam ser explicadas por Simon and Garfunkel na música America. Ao se despedir, ela segurou o irmãozinho pelos braços, olhou-o nos olhos e disse “um dia, você vai ser legal”. Ela também disse que ele olhasse debaixo da cama dele, pois o que tinha lá, iria libertá-lo. Era a herança dela, um cálice profano, uma mala repleta de discos vinil, no qual vemos Bowie, Dylan, Cream, Beach Boys, The Who, Led Zeppelin, Hendrix, entre outros. Para dar um ar ainda mais místico, ela pede que ele escute Tommy (LP do The Who) com velas acesas.

Por causa de sua solidão, ele fez desses discos os seus amigos íntimos. Não tardou para William começar a escrever sobre música para algumas revistas independentes locais. Ele admira e se espelha em Lester Bangs, o lendário (e real) crítico de rock e editor da revista musical Creem. Quando o editor está dando uma entrevista a uma rádio local na cidade de William, o garoto aproveita para conhecê-lo. Lester gosta do garoto e pede para ele fazer uma matéria sobre Black Sabbath.

Ele falha em entrar no show como jornalista, mas lá fora ele conhece Penny Lane e seu exército de Band-Aids (elas atestam que não são groupies, afinal, não transam com os rockstars, apenas pagam boquetes). Uma delas, Saphira, tem acesso ao back stage, abre a porta e grita “Do you remember laughter?” parafraseando Jimmy Page em uma versão ao vivo do Stairway to Heaven (como eu sei da referência? Ok, eu admito, sou nerd). Elas entram, ele não. Mas, ele próprio consegue fazer o seu caminho ao ganhar a simpatia do grupo Stillwater. William não só estava dentro daquele show, como havia adentrado os bastidores do mundo do rock.

William consegue cumprir a tarefa, escreve o artigo para a revista Creem, e a revista Rolling Stone se interessa por ele. Pede que ele faça uma matéria, e ele se propõe a escrever o perfil de uma banda de rock em ascensão (a Stillwater). A revista não tem a menor noção que o novo contratado tem apenas quinze anos, pois até o momento, eles só haviam mantido contato pelo telefone. Era o emprego que ele aspirava para vida. Ele, então, agarra sua caneta e caderno como se fossem amuletos e liga para o seu mentor Lester Bangs para pedir sábios conselhos. Lester pede que ele escreva a verdade nua e crua e que ele não fique amigo dos músicos, pois ele não é um cara legal e a única coisa que a banda poderia querer dele, é que ele escrevesse elogios, e é exatamente isso que está matando o rock n’ roll e o transformando em uma indústria.

Ele intenciona manter-se longe, (da banda e) da escola apenas por alguns dias, mas quando Russel (guitarrista da Stillwater) e o resto da banda começam a ficar acostumados com a presença dele (brincam com ele e o chamam de “O Inimigo” por ele ser um crítico de rock) ele começa a ficar mais e mais distante de casa. Em um momento de angústia, ele clama que tem que voltar para casa, mas Penny Lane diz que ele, na estrada, seguindo a música ESTÁ em casa.

William ama Penny Lane que ama Russel que tem uma esposa. Diria que Penny Lane (papel que foi escrito com uma extraordinária delicadeza e cuja atriz se inspirou na mãe de Liv Tyler para trazer a personagem à vida) é mais que uma groupie, é uma ninfa. Ela diz que diferente das tietes, ela não está lá para dormir com alguém famoso, mas sim por amor a música. Afeição tão grande que faz que ela ame cada singular nota, até da canção mais boba. Mas, no evoluir da turnê, ela confunde músico com música, e termina por ter seu coração partido. Em conseqüência, parte com coração de William, que parte o orgulho da banda ao fazer o que seu mentor sugeriu, contar a história assim como ela é.

E William estava lá. Presenciou a banda alcançar um hit single. Testemunhou os duelos de ego-titãs dos membros da banda. Viu um produtor grande tentar tirar a banda do homem que vem os acompanhando desde o início. Assiste a banda trocar o ônibus por um avião e por causa de um quase-acidente, escuta as mais terríveis confissões dos integrantes. E William escreve sobre isso. E a revista Rolling Stone adora. Mas, a banda desmente tudo, diz a Rolling Stone que William é apenas um garotinho tolo de 15 anos. A banda quebra o coração de William que quebra o coração de Penny Lane que quebra o coração de Russell. Metaforizando bem uruboros da música e a indústria. Como o próprio vocalista da banda menciona: “as bandas dizem que não querem ser famosas, não querem se vender. Led Zeppelin, Black Sabbath, todas bandas famosas, todas bandas excelentes. Me mostre alguém que diga que não quer ser famoso, que eu te mostro alguém sem coragem”. Mas a grande verdade é que a indústria só funciona quando os fãs da banda estão felizes.

A maravilhosa trilha sonora “vintage” é um elemento de extrema importância. Nessa película, a música não é só mais um adorno, um papel de parede sonoro. Ela é participante, dialoga com os personagens, e os personagens respondem. As músicas do Stillwater foram escritas por Crowe e sua mulher, Nancy Wilson. Mas, não confunda Quase Famosos com uma doce viagem nostálgica. É sobre desafios, sentimentos contraditórios, perigo e outras coisas que nos fazem virar de ponta-cabeça. Crowe triunfa por não mostrar apenas o lado bom do rock. Quase Famosos triunfa por nos sensibilizar. E no final do filme, Crowe, a banda, as groupies, eu e você estamos todos viajando juntos e esperando pela próxima turnê.