"One day, you'll be cool!"

QUASE FAMOSOS

Título Original:Almost Famous

País de Origem: EUA

Ano de Lançamento: 2000

Tempo de Duração: 123 min

Diretor: Cameron Crowe

Roteiro: Cameron Crowe

Elenco: Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Jason Lee, Patrick Fugit, Zooey Deschanel, Fairuza Balk, Anna Paquin

*****

Se você ainda não vendeu sua alma para rock n’ roll, Quase Famosos vai fazer você selar o contrato. O filme é puro deleite. Tenho vontade de abraçar-me toda vez que o assisto. Ou subir na cama e cantar Baba O’rilley gritando todo ar dos meus pulmões.

Já nos créditos manuscritos de abertura, você sente como se estivesse fazendo um amigo. Você vê um garoto escrevendo no seu caderno, os posters e discos de bandas que ele gosta, os livros que ele lê e os objetos que ele coleciona. Começa a se tornar claro que é um filme sobre o mundo do rock, na visão de um garoto. Mas o filme não é só sobre um garoto. É sobre o período do começo dos anos 70, quando o idealismo do rock colide com a indústria.

Esse garoto, que o diretor já faz com quem nós nos identifiquemos quase instantaneamente, é William Miller (Patrick Fuqit em seu brilhante debute como o alterego de Cameron Crowe) o filho de uma professora universitária sufocadora e viúva que o fez pular três anos na escola e isso o fez ser isolado. Sua mãe também não aceita o demônio do rock n’ roll em casa. Ao completar 18 anos, Anita, a irmã mais velha de William, sai de casa para ser aeromoça. Ela disse que todas as razões dela para abandoná-los poderiam ser explicadas por Simon and Garfunkel na música America. Ao se despedir, ela segurou o irmãozinho pelos braços, olhou-o nos olhos e disse “um dia, você vai ser legal”. Ela também disse que ele olhasse debaixo da cama dele, pois o que tinha lá, iria libertá-lo. Era a herança dela, um cálice profano, uma mala repleta de discos vinil, no qual vemos Bowie, Dylan, Cream, Beach Boys, The Who, Led Zeppelin, Hendrix, entre outros. Para dar um ar ainda mais místico, ela pede que ele escute Tommy (LP do The Who) com velas acesas.

Por causa de sua solidão, ele fez desses discos os seus amigos íntimos. Não tardou para William começar a escrever sobre música para algumas revistas independentes locais. Ele admira e se espelha em Lester Bangs, o lendário (e real) crítico de rock e editor da revista musical Creem. Quando o editor está dando uma entrevista a uma rádio local na cidade de William, o garoto aproveita para conhecê-lo. Lester gosta do garoto e pede para ele fazer uma matéria sobre Black Sabbath.

Ele falha em entrar no show como jornalista, mas lá fora ele conhece Penny Lane e seu exército de Band-Aids (elas atestam que não são groupies, afinal, não transam com os rockstars, apenas pagam boquetes). Uma delas, Saphira, tem acesso ao back stage, abre a porta e grita “Do you remember laughter?” parafraseando Jimmy Page em uma versão ao vivo do Stairway to Heaven (como eu sei da referência? Ok, eu admito, sou nerd). Elas entram, ele não. Mas, ele próprio consegue fazer o seu caminho ao ganhar a simpatia do grupo Stillwater. William não só estava dentro daquele show, como havia adentrado os bastidores do mundo do rock.

William consegue cumprir a tarefa, escreve o artigo para a revista Creem, e a revista Rolling Stone se interessa por ele. Pede que ele faça uma matéria, e ele se propõe a escrever o perfil de uma banda de rock em ascensão (a Stillwater). A revista não tem a menor noção que o novo contratado tem apenas quinze anos, pois até o momento, eles só haviam mantido contato pelo telefone. Era o emprego que ele aspirava para vida. Ele, então, agarra sua caneta e caderno como se fossem amuletos e liga para o seu mentor Lester Bangs para pedir sábios conselhos. Lester pede que ele escreva a verdade nua e crua e que ele não fique amigo dos músicos, pois ele não é um cara legal e a única coisa que a banda poderia querer dele, é que ele escrevesse elogios, e é exatamente isso que está matando o rock n’ roll e o transformando em uma indústria.

Ele intenciona manter-se longe, (da banda e) da escola apenas por alguns dias, mas quando Russel (guitarrista da Stillwater) e o resto da banda começam a ficar acostumados com a presença dele (brincam com ele e o chamam de “O Inimigo” por ele ser um crítico de rock) ele começa a ficar mais e mais distante de casa. Em um momento de angústia, ele clama que tem que voltar para casa, mas Penny Lane diz que ele, na estrada, seguindo a música ESTÁ em casa.

William ama Penny Lane que ama Russel que tem uma esposa. Diria que Penny Lane (papel que foi escrito com uma extraordinária delicadeza e cuja atriz se inspirou na mãe de Liv Tyler para trazer a personagem à vida) é mais que uma groupie, é uma ninfa. Ela diz que diferente das tietes, ela não está lá para dormir com alguém famoso, mas sim por amor a música. Afeição tão grande que faz que ela ame cada singular nota, até da canção mais boba. Mas, no evoluir da turnê, ela confunde músico com música, e termina por ter seu coração partido. Em conseqüência, parte com coração de William, que parte o orgulho da banda ao fazer o que seu mentor sugeriu, contar a história assim como ela é.

E William estava lá. Presenciou a banda alcançar um hit single. Testemunhou os duelos de ego-titãs dos membros da banda. Viu um produtor grande tentar tirar a banda do homem que vem os acompanhando desde o início. Assiste a banda trocar o ônibus por um avião e por causa de um quase-acidente, escuta as mais terríveis confissões dos integrantes. E William escreve sobre isso. E a revista Rolling Stone adora. Mas, a banda desmente tudo, diz a Rolling Stone que William é apenas um garotinho tolo de 15 anos. A banda quebra o coração de William que quebra o coração de Penny Lane que quebra o coração de Russell. Metaforizando bem uruboros da música e a indústria. Como o próprio vocalista da banda menciona: “as bandas dizem que não querem ser famosas, não querem se vender. Led Zeppelin, Black Sabbath, todas bandas famosas, todas bandas excelentes. Me mostre alguém que diga que não quer ser famoso, que eu te mostro alguém sem coragem”. Mas a grande verdade é que a indústria só funciona quando os fãs da banda estão felizes.

A maravilhosa trilha sonora “vintage” é um elemento de extrema importância. Nessa película, a música não é só mais um adorno, um papel de parede sonoro. Ela é participante, dialoga com os personagens, e os personagens respondem. As músicas do Stillwater foram escritas por Crowe e sua mulher, Nancy Wilson. Mas, não confunda Quase Famosos com uma doce viagem nostálgica. É sobre desafios, sentimentos contraditórios, perigo e outras coisas que nos fazem virar de ponta-cabeça. Crowe triunfa por não mostrar apenas o lado bom do rock. Quase Famosos triunfa por nos sensibilizar. E no final do filme, Crowe, a banda, as groupies, eu e você estamos todos viajando juntos e esperando pela próxima turnê.

9 comentários:

Silvinha disse...

é um filme apaixonante, p/ assistir sem tirar os olhos da tela por um segundo. E você não fez uma resenha do filme, fez uma declaração de amor... bom, a sequência crowe tava dando meio na cara, né?

Beijo

Rodrigo Carreiro disse...

1 - virei tão fã do Stillwater, que durante anos eu ouvia as poucas músicas deles disponíveis a exaustão. Fever dog é foda!
2 - Tiny dancer é um clássico. E a cena em que todos cantam tiny dancer é sobrenatural
3 - quem como eu é jornalista e amante da música tem nesse filme uma bíblia
4 - Kate Hudson está maravilhosa
5 - A versão estendida é fodástica tb. Já viu?

;p

rancorizando disse...

Bom, acho que só eu no mundo não gostei desse filme né?
Não gostei.
mas até que lendo o seu texto, consegui achar um pouco de simpatia em minha pessoa pela história.
Talvez tenha sido a fase... um dia assisto novamente.

Paulo Bono disse...

é. esse eu achei do caralho.
e é um puta roteiro. tem humor, romance, drama, bons diálogos e música. muita música.

abraço

Chantinon disse...

Preciso falar eu eu adorei esse?
Eu fico rindo da minha irmã vendo novela... Ela é capaz de gritar quando o protagonista leva um tiro.
Mas eu sou meio assim com filmes.
Adoro filmes que me fazem pular e dar socos no ar. Esse ai é maravilhoso, e como vc falou, no final estamos lá, todos nos dentro do onibus.
Eu adoraria ter uns 20 ou 30 anos a mais hoje... teria curtido esse tempo do rock pirado e romantico.

SAMANTHA ABREU disse...

esse file é fabuloso.
Puxa! Sempre me esqueço dele quendo vou enumerar os filmes que gosto.
como posso esquecer dele, hein?!

O filme é completo, pleno. E a trilha... ah, a trilha!
Você tem razão em cada palavra, Sun.
em cada palavra!

Um beiJO!

Natália Nunes disse...

mesmo se vc não tivesse escrito outras resenhas sobre filmes do crowe, só por esse texto já dava pra dimensionar a sua paixão e tietagem pelo cara, dava sim.

"one day you'll be cool".
ah, adoro isso :)


bitóca!

Surfista disse...

Um dos meus filmes favoritos. Concordo com o colega acima: a versão ampliada é fabulosa!

Talvez esse seja o filme mais sensível sobre rock. Eu, devoto do estilo e das bandas de outrora, tenho nesse filme um portal para o universo das guitarras em chamas.

Gabriele Fidalgo disse...

Ah, que adjetivo poderia usar para dizer como adoro esse filme? Não dá para falar pouco sobre ele. E você disse muito do que eu diria.
Eu amo!

Beeeijos. :)