007 - Quantum of Solace

Assisti ao último filme do James Bond, o Quantum of Solace. Calma, Internet, ainda sou a sua boa e velha garota, adoro filme de zumbis, odeio musicais... Mas matei aula e o cinema estava de três reais, então 007, aí vamos nós.

O que tem no novo filme?

Explosões – muitas.
Cenas de perseguição – uma porrada.
Carros e tecnologia – siiiiiiiiiiiim.
Martini, armas, garotas bonitas - Checado, checado, checado.
Um tema recorrente, como, digamos assim... o problema da falta de água - Oh, Yes.

Então, foi um Bond-filme? Nah... Não acredito no Daniel Craig como James Bond. Ele não é bonito, não fuma, deixou de dizer a frasezinha clichê-mas-importante “my name is Bond, James Bond” (talvez porque ele não faça jus?) e deixou de comer uma garota. Logo, vou dizer que quanto aos James Bond, faço as palavras do Sickboy do Trainspotting minhas:


Nenhum chega aos pés do carisma do Sean Connery. Nenhum. Bang Bang.


Nem mocinhas, tampouco fracas, pior ainda indefesas

Porque eu gosto mesmo é das falhas, dos defeitos, dos vacilos, da plena falta da perfeição, dos desvios de caráter.

Porque eu gosto mesmo é de gente que busca satisfazer seu próprio interesse, que sofrem desapontamentos em suas vidas, mas persistem até alcançar o ato heróico.

Porque eu gosto de filmes cujas protagonistas têm atitudes referentes às mulheres normais, aquelas que não possuem vocação heróica, ou casta ,e que realizam as façanhas por motivos egoístas, de vaidade ou de quaisquer gêneros que não sejam altruístas.

Porque eu sou brasileira e o herói da minha gente é Macunaíma - que não tem caráter algum, fiz a lista das minhas dez favoritas anti-heroínas.


1. Scarlett O'hara, E o Vento Levou - "Why does a girl have to be so silly to catch a husband?"



2. Beatrix Kiddo, Kill Bill Vol. I e Vol.II - "I'm the deadliest woman in the world. But right now, I'm just scared shitless for my baby. "



3. Daine, Trainspotting - "Do you find that this approach usually works? Or let me guess, you've never tried it before. In fact, you don't normally approach girls - am I right? The truth is that you're a quiet sensitive type but, if I'm prepared to take a chance, I might just get to know the inner you: witty, adventurous, passionate, loving, loyal. Taxi! A little bit crazy, a little bit bad. But hey - don't us girls just love that?"



4. Alice, Closer - "Oh, as if you had no choice? There's a moment, there's always a moment, "I can do this, I can give into this, or I can resist it", and I don't know when your moment was, but I bet there was one."



5. Lisa, Garota, Interropida:
Lisa: We are very rare and we are mostly men.
Janet: Lisa thinks she's hot shit cause she's a sociopath.
Cynthia: I'm a sociopath.
Lisa: No, you're a dyke.



6. Margot Tenenbaum, Os Excêntricos Tenenbaum - "I'm adopted, did you know that? I ran away to find my real family when I was fourteen. They live in Indiana. "



7. Celine, Antes do Pôr-do-sol - "The concept is absurd. The idea that we can only be complete with another person is evil! Right?"



8. Clementine, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças - "Too many guys think I'm a concept, or I complete them, or I'm gonna make them alive. But I'm just a fucked-up girl who's lookin' for my own peace of mind; don't assign me yours."



9. Marla Singer, Fight Club - "Marla Singer: she's like the scratch on the roof of your mouth that would heal if you would just stop tonguing it, but you can't."



10. Menção honrosa, por vida e obra, Betty Daves - "Gay Liberation? I ain't against it, it's just that there's nothing in it for me. "


Juno

Título Original: Juno
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 96 minutos Ano de Lançamento (EUA / Canadá / Hungria): 2007
Site Oficial: www.foxsearchlight.com/juno
Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Mandate Pictures / Mr. Mudd
Distribuição: Fox Searchlight Pictures
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Diablo Cody
Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Mason Novick e Russell Smith
Música: Matt Messina

Fotografia: Eric Steelberg
Desenho de Produção: Steve Saklad
Direção de Arte: Michael Diner e Catherine Schroer
Figurino: Monique Prudhomme
Edição: Dana E. Glauberman

Elenco Ellen Page (Juno MacGuff) Michael Cera (Paulie Bleeker) Jennifer Garner (Vanessa Loring) Jason Bateman (Mark Loring) Allison Janney (Bren MacGuff) J.K. Simmons (Mac MacGuff) Olivia Thirlby (Leah) Eileen Pedde (Gerta Rauss) Rainn Wilson (Rollo) Daniel Clark (Steve Rendazo) Darla Vandenbossche (Mãe de Bleeker) Aman Johal (Vijay) Valerie Tian (Su-Chin)


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Internet, vamos ser sinceras, estamos diante de uma era de valorização a supremacia nerd. Isso mesmo, supremacia. Você ouviu, nerd.

Não sei se é culpa do Gates, do Jobbs, do Woody ou dos filmes que começaram nos anos 80, ou, tudo bem, tudo bem MINHA... mas, hoje em dia, as pessoas não se reúnem sentadas diante de uma tela enorme para ouvir e vê-la relatando sobre o rei e a rainha do Baile. A fórmula linda menina feia, que basta desamarrar o cabelo, tirar o macacão, se livrar dos MUITOS pêlos indesejáveis e colocar lentes de contato também não funciona mais.

Mas, empatizamos, terrívelmente com o magrelo que dança esquisito, pela garotinha desengonçada que quer a faixa de miss, com os neuróticos e compulsivos que se apaixonam pelas meninas que nunca vão ser perfeitas. Ah, os problemas, eles também tem que soar reais.

Tudo isso por causa de gente querendo ver gente na tela. Se isso não fosse um pouquinho real, Internet, os reality shows não estaria fazendo tanto sucesso, estariam?

Como, por exemplo, uma adolescente de 16 anos e deslocada que tem uma gravidez não planejada do amigo. Nenhum dos dois tem condições psicológicas ou financeiras de criar o bebê. Ela, depois de desistir do aborto, tenta procurar um casal perfeito para doar a criança.

Em curtas linhas esse filme tinha tudo para ser um drama, mas não é. Meryl Streep não interpreta a mãe. Tampouco é uma comédia escachada, tanto que Juno não recebeu uma tradução digna de filme de Sessão da Tarde como “As loucas aventuras da garota prenhe endiabrada”.

Escrito (ou roubado) pela infernal triple X (ex-stripper, ex-operadora de tele-sex ex-blogueira) Diablo Cody o roteiro é doce e sensível, mas com de pitadas de humor ácido. A talentosa Ellen Page (olhos nessa garota, os dois!) “é” Juno, a personagem principal, a garota a interpreta tão bem que nos sentimos tentados de trocar o verbo interpretar pelo ser.

A princípio, titubeie em falar sobre esse filme, pois me pareceu que tudo que haveria para ser comentado foi dito. Dando ênfase ao profusamente repetido “Juno é o novo Little Miss Sunshine!”. Traduzindo: uma produção barata para parâmetros Hollywoodianos que dosou com sucesso coerência, sentimento, ironia e apelo ao grande público. Ele apraz à audiência fã de cinema que vai até à sala na pré-disposição de assistir a um bom filme a àqueles que não estão antenados com o que vai ser exposto na tela, tendo como único intuito a diversão.

Mas, não tinha como não comentá-lo. Fui vê-lo durante o carnaval, quando fiquei em casa, presa trabalhando. Quando o filme acabou, a luzes acenderam e eu me levantei, tinha glitter em um dos meus braços. O que foi a perfeita metáfora para descrever como eu me senti.

Quando um filme desse aspecto surge, indago-me quanto aos elementos necessários para a arquitetura de uma obra que será um sucesso. Acredito que as estruturas básicas estão em um diretor que saiba discernir pastelão de diversão, que seja irônico e não extremamente ácido; e, um roteiro que tenha uma visão particular sobre, mas coerente, sobre um tema universal. Elementos estéticos de uma cultura popular expostos de uma maneira que os experts se sintam felizes pela identificação e que os leigos não se sintam deixados de fora, é o cimento que une tudo isso.

Little Miss Sunshine foi estruturado assim. Desde a dupla dinâmica roteirista/diretor que souberam discutir temas básicos familiares sob a luz do humor agridoce até a exposição de ícones pop em múltiplos graus de compreensão: um avô viciado e coreógrafo, um pai autor de livros de auto-ajuda, um adolescente que fez um voto de silêncio por causa de Nietzsche, um tio acadêmico de literatura gay e suicida, a mãe que une todos os pedaços da família disfuncional, a garotinha que ensina os mais velhos o valor da vida.

Juno teve a mesma estrutura, só que ela sofreu um update. O filme é embalado pela trilha sonora recheada de música folk, gênero que voltou a surfar as ondas do rádio, que aparece em programas de televisão, pois se apossou dos fãs de música indie nos últimos anos. A ironia marca presença especial em Juno, ela é quase mais um personagem que serve de apoio à protagonista. É através dela que a personagem principal faina suas dificuldades. Acredito que a ironia é também a essência, por fazer a ligação entre o conteúdo e o público.

Um outro feitio característico de Juno é a reativação desavergonhada dos anos 90 presente no filme. Um dos principais parceiros da garota no filme é o supostamente futuro pai adotivo de seu filho, um, também, adolescente em meados de seus trinta anos que se gaba do fato de ter participado de uma banda que excursionou com o Melvins e que se envolve em discussões e resquícios musicais invocando sua participação ativa no "áureo auge do grunge". A própria ironia é característica esmagadora dos filmes dos anos 90.

É, meus caros, a oitentização dos anos noventa é cada vez mais fatal. Vemos o estilo cada vez mais presente em filmes de meados dos anos 2000, quase uma década depois, é a época de a nostalgia reinar. O enredo de Juno é intensamente coberto pela cultura pop americana dos anos 90, época em que fomos submetidos ao ataque musical grunge e ianque. Atualmente temos diversos focos (nós mesmos temos a nossa Mallu – quase-mulher – Magalhães).

Por isso digo: tirem suas camisas de flanela do armário, pois Juno já chegou nas locadoras e quando chegar ao Sessão da Tarde, talvez como “Juno, a embuchadinha da pesada”, coisas como indie, folk, grunge, ironia, e noventismo estarão submersas na nossa cultura – tal qual os códigos do oitentismo estão incutidos hoje.

Dogville

Ficha Técnica
Título Original: Dogville
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 177 minutos

Ano de Lançamento (França): 2003
Site Oficial: www.dogville.dk

Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier

Produção: Vibeke Windelov

Fotografia: Anthony Dod Mantle
Desenho de Produção: Peter Grant

Figurino: Manon Rasmussen

Edição: Molly Marlene Stensgard
Elenco

Nicole Kidman (Grace)
Harriet Andersson (Gloria) Lauren Bacall (Ma Ginger) Jean-Marc Barr (Homem com grande chapéu) Paul Bettany (Tom Edison) Blair Brown (Sra. Henson) James Caan (Homem grande) Patricia Clarkson (Vera) Jeremy Davies (Bill Henson) Ben Gazzara (Jack McKay) Philip Baker Hall (Tom Edison Sr.) Siobhan Fallon (Martha) John Hurt (Narrador - voz) Udo Kier (Homem de casaco) Chloë Sevigny (Liz Henson) Stellan Skarsgard (Chuck) Miles Purinton (Jason)



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Esse não é um texto para induzir a assistirem Dogville, é um texto para abrir um debate com quem já viu, quem entendeu, quem acha que abrangeu o sentido da coisa, quem não captou porra nenhuma além da sensação de murro no estômago.

Sentimento que, aliás, é estético. Aprendi na aula de Imagem e Estética, que andar de montanha russa é um sentimento estético, pois estética vem do grego aisthésis, que significa sentir. Aprendi, inclusive, que sentimento estético é um termo redundante. Se estiver difícil de compreender, o contrário de estética (aisthésis) é anestesia, a falta de sensações. E é isso que a arte procura, a estética.

Lars Von Trier quem homenagea caramente o teatro de Bertold Brecht, junto com Thomas Vinteberg fundou o manifesto Dogma 95 que se propõe a cumprir 10 regras para a produção de filmes, entre elas encontram-se: não usar cenários, não usar trilha sonora, usar apenas câmera de ombro etc. Seu único filme que segue essas regras é: "Os Idiotas". Eles procuram uma falta de estética do conhecimento geral (cenário, beleza, a la Moulain Rouge – também com Kidman) e um destaque de estética no sentido grego de causar sensações e sentimentos que chegam a ser físicos, daí, o murro na boca do estômago.

Dogville não tem cenário, quase não tem música. E mesmo assim, quem procura os defeitos estéticos do filme, procura em vão. As escolhas artísticas de Lars provam que ele ainda acredita na existência de uma audiência inteligente. Audiência que se sente desconcertada a primeira vista, e até a última vista, não consegue se acomodar com a história.

O filme pinta o retrato de um pequena comunidade americana que mora longe de tudo, entre rochas, em uma minúscula e pacata cidade chamada Dogville. Mas o filme, em momento algum tem um discurso regionalista. O deslize do sereno ao sádico é um tema multicultural. Compare a heroína Grace (Nicole Kidman) à Geni da música de nosso Chico Buarque: Ambas não eram aceitas na cidade, até que elas passaram a prestar favores, e foram cruelmente repudiadas no final.

Outro mote multicultural abordado pelo filme, que eu acredito ser o feixe principal, é a arrogância. Que é contada em capítulos na película de Lars.

No epílogo, somos apresentados aos moradores de Dogville. Alguns deles são: Tom, o escritor que presunçosamente sonha com os louros dos prêmios literários mas apenas escreveu em uma folha de papel branco as palavras: “grande?” e “pequeno?”; a moça da igreja, que toca o sino dando as horas e teimosamente espera por um padre que nunca virá (menção ao Messianismo), um cego que altivamente finge que enxerga, duas senhoras soberbas que trabalham em uma loja onde tudo é caro demais para a pobre Dogville; a única moça bonita da cidade, que trabalha com copos de segunda mãe transformando-os em bonitos copos que pareçam de primeira categoria “mas cuidado, eles são frágeis” (ela diz em alusão a uma metáfora de Dogville), ma moça também diz que apenas ficou feliz com a chegada de Grace para se livrar dos olhos dos homens de cima dela.

A glacial e sólida Grace da o ar da Graça em Dogville. Ela chega fugida de um gangster, o seu pai. Eles tiveram uma feia discussão a cerca de quem era o mais arrogante. O pai, pau da vida, tenta atirar na filha, que foge sem sequer olhar pra trás, ela se comprometeu a provar ao gangster a existência da bondade humana. Lars Von Trier, esfrega as mãos e diz “há há há!”.

Os capítulos declinam do amor que Grace sente a subjugada humilde Dogville e seus simplórios cidadãos, que se propõe a prestar favores para os moradores que arrogantemente relatam que "não precisam de favor algum", tentando fazer com que a cidade a ame do jeito ela a ama e não a entreguem para os gangster; a uma série de desventuras como cada cidadão vai se aproveitando e machucando-a cada vez mais, a super-exploram – mesmo quando eles não necessitavam de ajuda – estupram-na incontáveis vezes – o que antes faziam com os animais, fazem com Grace. Ela, agora, desiludida, tenta fugir mas não tem sucesso, e, para selar o caráter animalesco e canino, Dogville coloca uma coleira em Grace. Depois de tudo, Dogville, conduzida pelo namorado de Grace, decide entregar a fugitiva aos gangsteres. O papai de Grace quem ela não havia ligado em busca de socorro por pura arrogância e teimosia para não admitir que estava errada.

Ele chega e mais uma vez eles discutem sobre quem é mais arrogante, e quando ela assume a sua presunção, ela enxerga que Dogville é mais orgulhosa que ela, pois no seu lugar, ela teria feito diferente. E tudo que Grace quer em sua vida é fazer a diferença, tornar o mundo melhor. Nesse âmbito ela chega à conclusão que o mundo seria um lugar melhor se Dogville não existisse. Mata todos os moradores, queima a cidade, deixando vivo apenas o cachorro.

O pior (ou melhor) de tudo é alcançarmos a conclusão que talvez não estejamos em frente a uma obra de ficção, talvez a verdade esteja ali, pintada como nunca fora antes. Talvez mereçamos que um Deus intolerante olhe de volta aqui pra baixo e nos esmague. Talvez não haja redenção onde os cães se escondem sob peles de homens… Mas onde, onde é isso? Talvez, “em uma pacata cidade não muito longe daqui”.


Vocês não acham?

Mais Estranho que a Ficção

Direção: Marc Forster

Roteiro: Zach Helm

Elenco: Will Ferrell (Harold Crick), Maggie Gyllenhaal (Ana Pascal), Queen Latifah (Penny Escher), Emma Thompson (Kay Eiffel), Dustin Hoffman (Professor Jules Hilbert), Kristin Chenoweth (Anchorwoman), Tom Hulce (Dr. Cayly), Linda Hunt (Dra. Mittag-Leffler), Tony Hale (Dave), Denise Hughes (Carla)
[Veja os participantes de "Mais Estranho que a Ficção"]

Duração: 113 min.

Gênero: Comédia/Drama





Minha vida com mimimi

Não suporto comédias românticas. Não é que eu não seja romântica, é que as “heroínas” da maioria desses filmes são chatas pra caralho. E se eu for totalmente sincera, o motivo real, único e verdadeiro, é que eu – GraçasaDeusPaiLouvadoIdolatradoAmém - não me identifico com elas.

Existe uma lista de poucas coisas que eu deixaria de fazer para ver um filme que estrele a Diane Keaton, Julia Roberts, Jennifer Lopes, Reese Whiterspoon, Mandy Moore, Jennifer Love Hewitt e Drew Barrymore (quem só está perdoada por E.T, Confissões de uma mente assassina e Garotos de Minha Vida). Na lista constam coisas como ser esmurrada no coração, comer sopa de vidro, pisar em vômito de cachorro em quanto eu estiver calçando meias. Essas coisas, bem, vocês têm idéia. Me chamem para assistir Serpentes a Bordo um milhão de vezes, mas não me chamem para assistir Um Amor para Recordar. Acho muito mais real o Samuel L. Jackson (REI!) matar cobras ouriçadas por ferormônio em um avião, que um bonitão casar com uma mina insossa porque ela está morrendo de câncer. Que um ricão casar com uma prostituta da Rodeo Drive. Que uma jornalista adulta voltar ao colégio e passar por adolescente e ela nunca foi beijada. Que a vozinha chata da Reese com o sotaque texano. E ver qualquer outra coisa dolorosa que estrele as Jennifers (Love Hewitt, Lopes, e agora, estendo meu convite à Aniston).

MAS, se eu sentir a mínima identificação com a politicamente incorreta mocinha... danou-se.

É isso que acontece com a Anna Pascal (Maggie Gyllenhaal), que tem uma tatuagem enorme no bracinho fininho, dona de uma padaria, pois acha que essa é a parte dela em tornar o mundo um lugar melhor, está tendo uma auditoria porque sonegou imposto de renda – não o imposto completo, só a parte designada às propagandas políticas, na qual ela explica em uma carta, junto com a sua declaração, carta que começa com “Querido Governo Chauvinista Capitalista”. Tá, não tenho uma tatuagem enorme no braço, pior ser dona de uma padaria, mas sou bem consciente quanto o que o dinheiro diz que faz com os meus impostos.

Mas, essa não é a estória de Anna Pascal, como fala a primeira frase do filme: “Essa é a história de um homem chamado Harold Crick e seu relógio de pulso”.

O filme é mais um da linha que os personagens principais sabem que vão morrer e o enredo gira em torno disso. O filme é uma inteligente dramédia, um perspicaz romansia.

Harold Crick (Will Ferrell no papel que o lança ao patamar de Jim Carrey, Robin Willians e outros atores que sabem maestrar BEM a comédia e a tragédia) é um homem solitário, que tem como parte mais humana do seu corpo, o seu relógio de pulso. Enquanto Harold Crick conta os passos até a parada de ônibus, o relógio adora quando ele corre, pois sente o vento bater em sua fronte de vidro. E é o relógio que fica de saco cheio da automatização de Harold e resolve agitar as coisas, parando e descontrolando a sua minuciosamente planejada rotina.

A vida de Harold é narrada por uma voz feminina, e isso não é feito deliberadamente, logo, entende-se que a vida ordinária dele é um livro, a autora narra, e sua vida vai ficar mais interessante quando – pasmem – ela narra que o simples ato do relógio parar vai levar à morte eminente do personagem principal.

Então, Harold enlouquece e vai procurar ajuda, primeiro com uma psiquiatra, pois ele ouve a narradora em sua cabeça, e ela o manda para um expert (o SEMPRE brilhante Dustin Hoffman) em literatura, para decifrar mais sobre o enredo. Um dos melhores diálogos do filme, é quando os dois sentam e tentam debater se a vida dele é um drama ou uma comédia, e puxa, quem já não pensou nisso.

Convencido que vai morrer e certo de que isso é o melhor para todo mundo, Harold, vai viver a vida que ele sempre quis, e não, não são coisas absurdas, ele vai comprar uma guitarra para aprender a tocar, pois ele nunca teve tempo, e se declara à Anna Pascal.

O filme é dirigido por Marc Forster (Em Busca da Terra do Nunca) traz referencias e homenagens claras à Kauffman (Brilho Eterno de uma mente sem lembraças). Sério, quem em sã consciência não faria uma homenagem à Kauffman? Eu daria o meu primeiro filho a ele.

Aqui, uma cena do filme que carrega um dos maiores mistérios já expostos na humanindade. "Por que as minas legais de vez em quando curtem um nerd?"


Minha Vida Sem Mim

My Life Without Me, Canadá/Espanha, 2003.
Direção e Roteiro: Isabel Coixet, baseada no conto Pretending the Bed is a Raft, de Nancy Kincaid.
Elenco: Sarah Polley, Amanda Plummer, Scott Speedman, Leonor Watling, Deborah Harry, Maria de Medeiros, Mark Ruffalo, Julian Richings, Jessica Amlee, Kenya Jo Kennedy, Alfred Molina.
Fotografia: Jean-Claude Larrieu. Montagem: Lisa Robison.
Direção de Arte: Carol Lavallee.
Música: Alfonso Vilallonga.
Canção: "Senza Fine", de Gino Paoli.
Figurinos: Katia Stano.
Produção: Esther García e Gordon McLennan. Site Oficial



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Ainda na linha de filmes que os personagens principais estão na eminência da morte, se o primeiro foi sobre o quarentão que já havia passado os melhores dias e queria aqueles bons e velhos tempos de volta, o segundo é sobre uma jovem garota que nem teve o tempo de aproveitar a vida plenamente e já tem de se despedir.

A maioria dos filmes sobre doenças terminais nos apresenta duas horas de incontáveis clichês – confrontos melodramáticos com amigos e familiares, a ceninha que a pessoa quase morre, mas tem um despertar, e todo mundo chora de alegria, a mudança repentina de atitude quando o portador da doença tem a ciência que vai morrer e não há nada que ele possa fazer a não ser escalar o Everest, viajar o mundo e encarnar o Calígula, a cena da morte, ou, o pior de tudo, a cena da cura milagrosa do último instante.

No filme escrito e dirigido por Isabel Coixet's, My Life Without Me (Minha Vida Sem Mim – não é excelente quando não temos uma tradução de título esdrúxula?), Ann (Sarah Polley) é uma bela jovem de 23 anos, casada com o primeiro namorado(o garoto que tirou as camisa para ela enxugar as lágrimas no show do Nirvana), mãe precoce de duas garotas adoráveis, trabalha como faxineira em um colégio, mora com o seu amado (e constantemente desempregado) marido e as duas filhas em um Trailer no quintal da mãe, nunca viajou, não terminou os estudos e agora descobre que tem um câncer inoperável no ovário. O pior de tudo é que não seria problema se ela fosse mais velha, mas devida a sua tenra idade, o seu metabolismo acelera a doença e sua expectativa de vida é de três meses.

Minha Vida Sem Mim consegue sair da trilha desses filmes clichês sobre a morte. O filme é triste, não tenha dúvidas, afinal, que filme sobre alguém que está morrendo é feliz? Mas, ele evita o sentimento depressivo que estes filmes nos propõe. Também está longe de ser uma afirmação simplista sobre os valores da vida. Acho que é porque a personagem principal, simplesmente se recusa a ser uma vítima.

Ann não teve uma maravilha de vida, e aos 23 anos descobre que vai morrer. Ao invés de sair por aí porralouqueanco, enfurecida, se derramando em lágrimas (o que eu definitivamente faria), pois acredito que a maioria das pessoas prefere a vida que a morte, mesmo que seja uma vida de merda, ela faz uma lista pequena e singela sobre as 10 coisas que ela tem que fazer antes de morrer, como por exemplo: gravar cassetes de aniversários para as filhas até que elas façam 18 anos, achar alguém apropriado para que o marido e as filhas fiquem bem quando ela partir, visitar o pai na prisão.
Esse é o perfil de uma jovem que, apesar da crise que passa, se recusa a sentar e ser alvo de pena e que tem como objetivo maior do que a sua felicidade no pouco tempo que tem, ela quer que a sua família esteja bem pelo tempo que lhes resta além dela, e por isso ela começa a planejar a vida sem ela.

Mas, ela também tem uma lista que tende ao lado egoísta. Ela quer saber como é dormir com outro homem (pois o seu marido foi primeiro e único), fazer com que alguém se apaixone por ela, mudar o cabelo, fazer as unhas com uma manicure profissional e falar o que pensa (tirando a parte que ela mantém da família e dos amigos a parte que ela vai morrer e que está tendo um caso). Antes de julgá-la, lembre-se que estamos falando de uma garota que nunca viajou, não terminou os estudos, e não teve nenhum feito importante.


Este foi o primeiro filme que vi com Mark Ruffalo (ele interpreta o amante de Ann) que está adorável em seu papel. O filme é produzido por Almodóvar e, nós, definitivamente, sentimos nuances de “Fala com Ela” ali, seja na brandura, beleza e naturalidade dos pensamentos de Ann para com ela, e ela somente:

"...Este é você, na chuva.
Nunca pensou que fosse fazer algo assim.
Você nunca se viu como - não sei como descreveria - como uma dessas pessoas que gostam de olhar a lua ou que passam horas contemplando as ondas ou o pôr-do-sol. Deve saber que tipo de pessoas estou falando. Talvez não saiba.
Seja como for, você gosta de ficar assim: lutando contra o frio, sentindo a água penetrar na sua camisa e a sensação do chão ficando fofo debaixo dos seus pés e do cheiro. Do som dá água batendo nas folhas e todas as coisas que estão nos livros que você não leu.
Esse é você.
Quem teria imaginado?
Você."

Ou na aparição de algum personagem excêntrico como a cabeleira que é a única fã do Milli Vanilli que resta no mundo inteiro, o médico que não consegue mais olhar no rosto das pessoas por ter que contar más notícias, e da garçonete cujo sonho e ganhar na Lotto para fazer cirurgias plásticas e se transformar na Cher.

Gosto desse filme pela diferença, pela apatia real que ele mostra. Ele não é um clichê.Nem todo mundo que descobre que tem câncer terminal tem dinheiro para viajar o mundo, nem todo mundo quer ser uma vítima, nem todo mundo quer fazer uma reviravolta e nem todo mundo que vive uma vida sem grandes feitos deve se sentir mal por isso. Nem todo mundo acha que o mundo inteiro deve parar no dia que pára de existir.

Beleza Americana

Título Original: American Beauty
Gênero: Comédia / Drama
Tempo de Duração: 121 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1999
Site Oficial: www.americanbeauty-thefilm.com
Estúdio: DreamWorks SKG
Distribuição: DreamWorks Distribution / UIP
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Alan Ball
Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Alan Ball e Stan Wlodkowski
Música: Thomas Newman e Pete Townshend
Direção de Fotografia: Conrad L. Hall
Desenho de Produção: Naomi Shohan
Figurino: Julie Weiss
Edição: Tariq Anwar e Christopher Greenbury


Elenco
Kevin Spacey (Lester Burham)
Annette Bening (Carolyn Burham)
Thora Birch (Jane Burham)
Wes Bentley (Ricky Fitts)
Mena Suvari (Angela Hayes)
Peter Gallagher (Buddy Kane)
Chris Cooper (Coronel Fitts)
Allison Janney (Barbara Fitts)


*****

Eu adoro Beleza Americana. Esse filme é uma comédia, certo? Eu, pelo menos, acho que é, apesar de me lembrar ser uma das poucas pessoas a rirem no cinema pelo absurdismo dos problemas do nosso anti-herói. O filme também é um drama, pela parte que ele – intrigantemente - nos sensibiliza. Em alguma maneira curiosa, aquele personagem confuso, imaturo, inseguro e quase pedófilo é envolvente.

O filme trata da história de um homem que está com medo de envelhecer, na verdade, DESAPARECER, seria a palavra mais apropriada. Essa é a parte que (alguns de nós) rejeitamos, mas, andando de mãos dadas com esse primeiro medo está o receio que ele tem em não conseguir enxergar a beleza nas pequenas coisas, à esperança no amor verdadeiro e que as pessoas mais próximas, percam totalmente respeito e admiração. Aí, não há como não empatizar com ele. Se você não consegue porque nunca experimentou esses sentimentos, me ligue, pois eu tenho muito que aprender com você.

Lester Burnham, o nosso anti-herói do filme, é interpretado por Kevin Spacey como o homem que é mal amado pela filha adolescente, ignorado pela mulher que vive acordada o American Dream, e dispensável ao trabalho que passou grande parte de sua vida exercendo.

Como ele fala logo nas primeiras frases do filme (o anti-herói é, também, narrador, ele narra o seu passado, não estando ciente pois ele narra suas memórias), “Meu nome é Lester Burnham. Em um ano, eu morrerei. De certa forma, eu já estou morto”. Se você vê a comicidade que existe no personagem principal do filme falar nos primeiros minutos que ele vai morrer, me ligue, pois temos muito que conversar.

Em seguida, conhecemos a mulher dele, Carolyn, que tem mania de perfeição e projeção da “imagem de felicidade” (what the fuck???). Na primeira cena dela, ela está a cuidar do seu jardim de rosas chamadas “Beleza Americana” combinando, nada acidentalmente, as cores do alicate e dos sapatos de jardinagem. As rosas estarão presentes no filme inteiro. Depois, somos apresentados a Jane, a filha adolescente ácida que está juntando dinheiro para fazer uma cirurgia de implantes nos seios, quando ela CLARAMENTE não precisa disso. As duas, mulher e filha, se envergonham de Lester.

Tudo muda para o personagem principal, na noite que ele é quase obrigado a assistir a uma apresentação da filha no colégio. Ele vê e se apaixona por Angela, a melhor amiga dela. E o que se segue pode parecer, para alguns, como uma história da estirpe de Lolita, mas, na verdade, é sobre o redespertar da paixão para a vida. A menina foi só a faísca que ateou o fogo.

Angela não é a sua estrada para felicidade. É o catalisador da liberdade. Ela o liberta de anos de paralisia emocional. Ela o tira do ponto em que ele havia se petrificado e parado de sonhar, e o coloca em uma situação na qual ele deseja ganhar respeito, poder e beleza.

Paralelamente, Carolyn e Jane passam por seus próprios problemas amorosos. A mulher começa a ter um caso com a pessoa que é a sua versão masculina. Enquanto Jane descobre a sua ternura e delicadeza graças ao excêntrico, belo e novo vizinho da frente.

Ricky, o vizinho da frente, é, exatamente, o antagônico de Carolyn. Ele, para se proteger do pai , o Coronel Fitts, um militar rígido que o controla através de exames de drogas pela urina, projeta uma imagem de apatia, quando tudo o que ele vê é beleza e emoção.

Nenhum dos personagens é inteiramente mau ou bom, e essa é parte da beleza do filme. Eles são moldados pela sociedade de tal maneira que eles não podem ser eles mesmos. Lester, o inútil que vai mexer com a vida de todos eles. Carolyn, a perfeccionista insegura. Jane, a adolescente que esconde a sua doçura por de trás da acidez. Ricky, o anestesiado altamente sensível. Pai do Ricky, o coronel gay. Angela, que é conhecida por todos na escola como puta, por preferir mentir a falar que é virgem. Por isso o filme é intitulado depois de uma linda rosa sem odor e sem espinhos, metáfora do vazio do americano comum que tenta mostrar mais do que parece ser. E nada é o que parece ser.

As performances dos atores dançam com harmonia perante as linhas da paródia e realismo. É lindo ver a evolução de Kevin Spacey no desenvolver do filme, como aquele que começou sem noção do que estava acontecendo ao redor dele, para aquele com o brilho nos olhos e riso no canto da boca por ser o único ciente de tudo. Aquele que faz as coisas mais incoerentes e irresponsáveis mas, pára de interpretar o papel que a sociedade exige que se submeta. E ele pode ter perdido tudo no final do filme, mas ele ganhou-se de volta.

Beleza Americana é o hino da rebelião de Lester Burnham. DE TODO Lester Burnham. Daquele que existe em mim e em você, que está ali coagido, entediado, menosprezado, querendo desencaixotar os LP’s do Led Zeppelin, trabalhar em um emprego que - apesar de parecer inóspito - te apraz, possuir as coisas que ama. Que quer passar o resto da vida que lhe resta vivo.

ONCE - Nem tudo que reluz precisa ser de ouro

Apenas uma vez



Título Original: Once
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 85 minutos
Ano de Lançamento (Irlanda): 2006
Site Oficial: www.foxsearchlight.com/once
Estúdio: Summit Entertainment / Samson Films
/ Radio Telefis Éireann / Bórd Scannán na hÉireann

Distribuição: Fox Searchlight Pictures / Imagem Filmes
Direção: John Carney
Roteiro: John Carney
Produção: Martina Niland
Música: Glen Hansard e Markéta Irglová

Fotografia: Tim Fleming
Desenho de Produção: Tamara Conboy

Direção de Arte: Riad Karin
Figurino: Tiziana Corvisieri
Edição: Paul Mullen


Elenco

Glen Hansard (Homem)
Markéta Inglová (Mulher)
Hugh Walsh (Timmy)
Geoff Minogue (Eamon)
Bill Hodnett (Pai do homem)
Danuse Ktrestova (Mãe da mulher)
Mal Whyte (Bill)
Niall Cleary (Bob)
Gerard Hendrick (Guitarrista)

Alastair Foley

Não, eu não gosto de musicais. Amo filmes, amo música, adoro prestar atenção nas trilhas sonoras, mas eu não suporto musicais. A minha simpatia não abraça personagens que abrem os braços e saem por aí cantando os seus nomes quando um simples “Prazer, Beltrana” é o suficiente.

Não, eu não gosto de musicais. “Mas, Sun, nem Moulin Rouge, Chicago?” Não e não. Nem o da estória de amor sobre o escritor que via a meretriz por quem ele era apaixonado cuspir sangue em plenos anos 30 do século passado e não sabia que aquilo era tuberculose. Nem sobre as brigas e conseqüentes, assassinatos dos egos da loira e da morena, tendo o grisalho como grande vencedor.

Não, eu não gosto de musicais. Mas tentei dar uma chance a eles. Fui de olhos, peitos e mente, todos abertos assistir ao Sweeney Todd por que é um filme do TIM BURTON, com o JOHNNY DEPP, HELENA BONHAM CARTER, que conta a história de um PSICOPATA, isto é, tinha tudo que adoro no cinema. Doze minutos após o início do filme, comecei a cavar buraquinhos na poltrona para conseguir me concentrar e continuar até o final.

Não, eu não gosto de musicais. Mas adoro filmes sobre biografias das bandas e músicos. The Wall (Pink Floyd por Alan Parker), Tommy (The Who por Ken Russel), Não estou lá (Dylan por Todd Haynes), No Direction Home (Dylan por Scorsese) e Shine a Light (Rolling Stones por Scorsese). Todos os filmes sobre música e músicos, repleta de trilha sonora e eu amo.

Vi o pôster de “Apenas uma vez” quando foi lançado, no cinema de arte. O cara bonitão com um violão e uma garota. Entortei a cabeça de lado, e li a pequena sinopse dizia algo como “Um músico de rua e uma jovem mãe encontram-se por acaso nas ruas de Dublin, nascendo entre eles um forte relacionamento. Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original”. E do lado ouço o comentário “Ah, escutei falar que esse filme é um musical excelente”. Olho o pôster e pondero sobre o meu trauma de longa data cultivado quanto ao gênero, e decido pelo título. Determino que “Apenas MAIS uma vez” eu vou tentar.

E, meu Deus, ainda bem que tentei.

A sinopse estava correta. Mas, nem de perto ela conseguiu descrever a atmosfera do filme. Simplicidade. É a única palavra que me vem à mente na hora de descrevê-la. A simplicidade sincera de uma criança ao responder uma indagação que você não tem a resposta, e estava lá, tão clara, tão clara que você não a enxergou. A simplicidade e sinceridade mágica e brilhante de criança.

Isso por que o diretor e roteirista John Carney foi a show de uma banda, The Frames, e pediu para o vocalista compor umas músicas para que a partir delas, ele escrevesse um roteiro. Alguns encontros, resultaram em dez canções e um roteiro de 60 páginas. 150 mil dólares (grande pra nós, nada para cinema) e 17 dias de filmagem depois, eles tinham um filme.

Os atores principais do filme, não são atores de forma alguma, são músicos. O músico irlandês (Glen Hansard ) e a pianista tcheca (Markéta Irglová) interpretaram um músico irlandês de rua que estava com o coração partido e voltou a morar com pai, ajudando-o a consertar aspirador de pó. E a pianista tcheca, é uma pianista tcheca, que mora na Irlanda com a mãe e uma filhinha pra cuidar, fazendo de um tudo para a sobrevivência delas. Esses músicos não decoraram os diálogos, apenas fizeram um Jam entre eles todas as vezes que se encontravam.

O resultado desse filme praticamente sem roteiro, barato, sem atores profissionais e personagens interpretando eles mesmos?

Nas palavras de Steven Spielberg:
"Apenas uma vez me deu inspiração o suficiente para o resto do ano!”

Bob Dylan gostou tanto do filme que convidou Glen Hansard e Markéta Irglová para fazerem o show de abertura em parte de sua turnê mundial.

E, para mim, o filme é fiel a simplicidade e sinceridade mágica, quase infantil, tão brilhante que fica difícil de enxegar, e a qual Hollywood tenta compensar gastando fortunas e filmes que não adicionam nada.

Nem tudo que reluz é ouro, diz o ditado. Mas nesse caso, nem tudo que é brilhante, precisa custar caro.



Por que eu não acho um desses na esquina de casa? Nem Apenas uma vez?



WALL-E...u te amo!

Há algo sobre robôs manifestando os bons sentimentos humanos que amolece o meu coração de ferro e sucateado de guerra. WALL-E é o descendente de R2-D2 e C3PO mais simpático e adorável que já apareceu na tela do cinema. Tão gracioso e cheio de vida que quase me fez ter um curto-circuito.

Demorei um pouco para digerir a idéia de assistir o filme, pois:

1 – é da Pixar – e eu não digo isso por ser uma empresa de animação, e por isso, direcionada ao público infantil, mas por causa de temas como Carros falantes, ratos na cozinha e super heróis aposentados, simplesmente não é do meu grado.

2 – é de ficção científica, gênero que eu também não curto muito, pois não sou, digamos, assim, uma Trekkie;

3 – sabia de antemão que o filme praticamente não tinha diálogos. E eu amo diálogos, eu adoro diálogos, venero diálogos, tanto que acho os filmes da Sofia Copolla aporrinhantes e assisti-los, para mim, é uma péssima forma de passar o tempo, pois não me sinto uma pessoa agradada pela história em si, nem engrandecida pelas informações, nem uma pessoa melhor. Minto, me sinto uma pessoa melhor sim, melhor que ela, pois eu escreveria melhores roteiros, escreveria roteiros com DIÁLOGOS e não com repetições de cenas entediantes Ad Infinitum.

WALL-E quase não apresenta conversas. Na verdade, os primeiros quarenta minutos do filme não contêm uma fala sequer, e, se não me engano, as únicas palavras do herói durante o filme inteiro, são: “WALL-E”, “EVA”, “Terra” e “Matriz”. Mas isso não significa que não existe uma narração no filme. A história é contada através de uma narrativa visual proposta através dos olhos do robozinho e o que ele vê é um poema cinematográfico obscuro e complexo, por isso, para alguns o filme é difícil de fluir.

O cenário inicial é uma cidade sombria de muitos prédios, lixo e nenhum habitante, mas com evidencias que lá, há muito tempo atrás, existiu civilização. O planeta com a população dizimada, é um tema que já atormentou Steven Spielberg em I.A. com o robozinho com síndrome de Pinocchio, Fracis Lawerence em Eu sou a lenda com Will Smith e Bob Marley, e o mal interpretado Shyamalan em Fim dos tempos com o cara malvado fazendo papel de bonzinho Mark Wahlberg e, agora, Andrew Stanton roteirizando e dirigindo WALL-E da Pixar.



WALL-E é o robô solitário morador do silencioso e pós-apocalíptico planeta Terra, abandonado por 700 anos para compactar em pequenos cubos a grande sujeira deixada pelos homens. Ele desenvolveu personalidade. Diferente de Marvin, robô depressivo do Guia dos Mochileiros das Galáxias, WALL-E é um robô inquisidor que tenta recolher esperança. Ele, então, coleta, coleciona e se cerca de reminiscências humanas: luzes natalinas, isqueiro, um cubo de Rubik, videotapes, objetos sem valor que ele transforma em companheiros queridos devido a sua solidão.

Ele está lá, recolhendo e compactando a sujeira como tem feito pelos últimos sete séculos, quando vê algo novo, e como faz tudo com que desperta a sua atenção, ele guarda. De volta à sua casa, ele assiste a Hello, Dolly! o que ele já deve ter provavelmente assistido algumas milhares de vezes, e com que ele aprendeu sobre dança, amor, andar de mãos dadas, fazendo com que ele espere alguém com quem possa compartilhar essas lições.

Após uma espera quase eterna, a oportunidade de amar aparece em um robô branco, reluzente, frio e distante, em forma de ovo, a EVA. O nosso pequeno WALL-E se apaixona perdidamente por ela, mas EVA que é um tanto hostil, enviada à Terra para checar sinais de vida e só pensa em fazer isso. Por mais que ele queira lhe mostrar tudo de lindo que ele encontrou no planeta coberto de lixo. WALL-E, mostra o que ele tem de mais peculiar, uma plantinha, e faz com que EVA guarde-a e se tranque em sua forma de ovo. Ela é chamada de volta à nave mãe para reportar suas descobertas, mas, felizmente, nosso herói de lata é super-insistente e completamente sem noção, então, quando ela parte, ele se agarra a ela.

Nada iria impedir esse robô de olhos grandes de estar com sua obra prima mecânica EVA. NADA. Nem centenas de milhares de anos-luz de viagem sideral. Nem robôs modernos, poderosos e malignos. Nem seres humanos em formato de gelatina que não conseguem mais pisar no chão, nem ter contato uns com os outros e que perderam a noção sobre o que é ter um planeta antes de seus ancestrais tivessem o destruído. NADA.

Sim, existe um bom número de lições importantes contidas no filme:

- Proteja o meio ambiente,

- não fique fissionado na tecnologia e esqueça as relações face-a-face com os seres humanos,

- observe as coisas ao seu redor com os próprios olhos e não através de uma tela.

Mas, fundamentalmente, WALL-E é uma das mais românticas histórias de amor postas em um filme, mesmo sendo da Pixar, mesmo sendo de ficção científica. Por isso, ri, chorei, vibrei, e quando a sessão acabou, quis me levantar e bater palmas e saudar como se fosse uma boa apresentação de uma banda de rock que eu gosto. Eu que não sou fã da Pixar, que não me agrado com o gênero de ficção científica e que sou louca por diálogos.

Quanto a mim, que assisti o filme semana passada, prestes a sair de cartaz, passei a semana toda abrindo a janela para escrever o post e fechando. Por que? Porque sabia que ia falhar em falar o quanto o filme é bom, pois ele foi muito inesperado, e quando me deparo com algo assim, tão novo e bonito, me faltam palavras para descrevê-lo, de vez em quando até o ar me falta. Eu que não me surpreendo fácil e sempre tenho algo a dizer.

WALL-E é um filme tão sensível, que eu não pude fazer nada alem de ser atraída para o mundo sombrio e solitário do robozinho à procura de amor. A Pixar criou um filme para ser apreciado por todas as idades e que com certeza entrará na lista como um dos melhores desenhos animados já criados. Sei que essas palavras parecem ser fortes, mas agracie-se a si mesmo e veja o filme, assim, você saberá como elas são totalmente justificadas.


Tudo vai ficar bem agora que ele é governador

Exterminador do Futuro II - O Julgamento Final


Direção: James Cameron

Roteiro: James Cameron, William Wisher Jr.

Elenco: Arnold Schwarzenegger (Exterminador T-800), Linda Hamilton (Sarah Connor), Edward Furlong (John Connor), Robert Patrick (T-1000), Earl Boen (Dr. Peter Silberman), Joe Morton (Dr. Miles Bennett Dyson)

Duração: 137 min.

Gênero: Ação/Ficção Científica


*****

Alguns filmes, para mim, são mais que objetos, são amigos, são família. E como toda boa família, alguns deles me deixaram traumas psicológicos para o resto da vida, ou pelo menos, até que o Alzheimer chegue.

Um deles é a convicção que não são alienígenas, nem a vingança da mãe natureza se transformando em madrasta por causa da destruição do meio ambiente, tampouco guerras e o homem sendo o lobo do homem que vai extinguir a raça humana, mas sim a MÁQUINA.

Desde 1991, a partir da primeira vez que assisti Exterminador do Futuro II – o Dia do Julgamento, cada avanço tecnológico quebra um pedacinho do meu coração. Toda vez que inventam um protótipo de robô, eu me tremo de medo pensando “puta que pariu,está prestes a ocorrer! Eles vão mandar sinais para os eletrodomésticos e logo, TODOS ESTAREMOS EM EMINÊNCIA DE EXTINÇÃO!”

Quase dez anos depois, estou mais madura, menos influenciável e mais paranóica, Matrix é lançado e fode tudo de novo. Pois agora, não só a máquina vai extinguir a gente, como “Elas vão se alimentar de nós. VÃO SE ALIMENTAR DE NÓS” e isso pode estar acontecendo nesse exato momento.

Diria que as similaridades dentre os filmes além dos dois se tratarem de trilogias sobre o apocalipse futurístico causado do embate homem versus máquina, está na atuação robótica convincente dos dois personagens principais (sendo apenas o Schwarzenegger um cyborg de verdade, o Reeves é só ruim mesmo), a aparência máscula das personagens femininas (Carrie-Anne Moss e Linda Hamilton), as cenas de perseguição de carro, os trajes de couro e óculos escuros, como o cabelo do cara mau que persegue o mocinho tá sempre muito bem na fita, e que, a última parte de ambas as trilogias é tão trevas que eu não me dispus a assistir.

A trilogia de o Exterminador do Futuro começa em 1984, quando o diretor (até então desconhecido por Piranhas 2 e desde então Alien, O Segredo do Abismo, Titanic, Dark Angel) James Cameron resolveu escrever e dirigir um filme sobre um cyborg T-800 (Schwarzenegger) enviado ao passado para matar Sarah Connor (Linda Hamilton) a mãe do homem que seria o líder da resistência humana. Um homem também é enviado para protegê-la, eles se envolvem romanticamente, e não só ele se sacrifica por ela, como ele é o pai do prospectivo líder da resistência. O primeiro filme foi inovador por tratar o tema apocalíptico homem-máquina e duscursar sobre viagem no tempo com um toque noir High-Tech.

E a seqüência? Bem, a seqüência veio para calar a boca de todo indivíduo que professar que “uma continuação nunca é tão boa quanto o filme original”. O fato é que poucas vezes uma continuação foi tão digna do sucesso do primeiro filme como fez O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final.

Dez anos após os acontecimentos do primeiro filme, um novo cyborg é enviado ao passado pelo supercomputador Skynet que luta contra a humanidade em 2029 (tá perto, moçada!). A máquina que volta no tempo tem a mesma função, liquidar a existência do líder da resistência humana no futuro, John Connor. Mas, se essa foi uma tarefa difícil na pré-concepção dele, imagina agora que ele é um pré-adolescente?

Pensando nisso, Skynet manda um modelo updated, mais avançado de ferro líquido para poder ser mais escrotão e adquirir a forma de tudo o que toca, o T-1000 (Robert Patrick). Em uma tentativa de garantir a sua existência no presente de 2029, o próprio John Connor envia ao passado o cyborg T-800, que uma vez quis matá-lo (Arnold Schwarzenegger com o personagem de sua vida) para protegê-lo enquanto era apenas um garoto.

John Connor (Edward Furlong, aliás, cadê o moço?) pré-líder da resistência, trata-se de um garoto que tem apenas 12 anos mas, já tem uma lista de gente grande de crimes como agressão, invasão e roubo na sua ficha polícial. Ele é criado por pais adotivos, pois sua mãe Sarah, está internada no sanatório devido às suas alucinações com robôs viajantes de tempo, se marombando desde o último incidente. Por isso ela vai dar um monte de trabalho para o T-800 versão sangue.bom .

E é esse garotinho malvado, que nem sequer imagina que um dia vai passar de bandido a herói, cheio das manhas da rua, que vai se afeiçoar ao cyborg T-800, fazendo com que cresça entre eles não só laços de afeição (porque T-800’s também têm coração), como ele vai enteirar o cyborg na arte da malandragem, ensinando um dos maiores jargões cinematográficos de todos os tempos.

Apesar de repetir (às vezes, repetir é amarrar) parte da história de “O Exterminador do Futuro”, a seqüência acrescenta novos elementos à história, apresenta mais detalhes sobre a guerra contra as máquinas e inverte o papel de Schwarzenegger, colocando o gigante austríaco do lado do bem. Outra mudança é que, com mais fama e mais dinheiro, James Cameron abandonou as cenas escuras e locações claustrofóbicas do filme de 84, para usar e abusar de cenas claras, espaços abertos e efeitos especiais sofisticados. Os efeitos foram criados pela empresa de George Lucas, a ILM (Industrial Light & Magic) e renderam o Oscar de Efeitos Visuais ao filme, que também levou Melhor Som, Melhor Efeitos Sonoros e Melhor Maquiagem. Em meio a tanta tecnologia, é interessante notar que a cena onde o T-1000 se transforma em Sarah Connor, para enganar John, e encontra a verdadeira Sarah, foi gravada utilizando a irmã gêmea de Linda Hamilton, Leslie Hamilton. Além disso, a cena onde o exterminador se transforma em um guarda do sanatório também foi filmada com dois irmãos gêmeos.

Além da presença marcante de Arnold Schwarzenegger que repete a excelente e eterna performance robótica do primeiro longa, e do convincente Robert Patrick como robô de ferro líquido, devemos destacar Linda Hamilton. A atriz, que se preparou para o filme fazendo exercícios de musculação diários e treinamento com armas de fogo, rouba a cena e mostra que a importância de Sarah não se limitava a ter um filho. Edward Furlong, sofreu o efeito Amy Winehouse e acabou não sendo chamado para continuar seu personagem em “O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas”. Tanto o garoto quanto o terceiro filme, caíram no esquecimento da audiência.

Uma curiosidade é que o nome no caminhão que transporta nitrogênio líquido indica a empresa fictícia “Benthic Petroleum”, que também aparece em “O Segredo do Abismo”, do mesmo James Cameron. Outra curiosidade é que a música “You Could be Mine”, do Guns n' Roses, foi composta especialmente para o filme por Izzy Stradlin e Axl Rose. A banda é homenageada em uma cena onde Schwarzenegger (fã confesso) retira uma escopeta de uma caixa de rosas.

“O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final” arrecadou US$ 490 milhões em todo mundo e foi capaz de recuperar seus custos de produção em apenas 12 dias de exibição, se tornando uma das maiores bilheterias da história. Afinal, trata-se de um thriller emocionante, divertido, com uma história digna de seu predecessor, que merece ser visto e re-visto.


E como nem eu (nem ninguém) poderia esquecer:

Hasta la vista, Baby.

"One day, you'll be cool!"

QUASE FAMOSOS

Título Original:Almost Famous

País de Origem: EUA

Ano de Lançamento: 2000

Tempo de Duração: 123 min

Diretor: Cameron Crowe

Roteiro: Cameron Crowe

Elenco: Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Jason Lee, Patrick Fugit, Zooey Deschanel, Fairuza Balk, Anna Paquin

*****

Se você ainda não vendeu sua alma para rock n’ roll, Quase Famosos vai fazer você selar o contrato. O filme é puro deleite. Tenho vontade de abraçar-me toda vez que o assisto. Ou subir na cama e cantar Baba O’rilley gritando todo ar dos meus pulmões.

Já nos créditos manuscritos de abertura, você sente como se estivesse fazendo um amigo. Você vê um garoto escrevendo no seu caderno, os posters e discos de bandas que ele gosta, os livros que ele lê e os objetos que ele coleciona. Começa a se tornar claro que é um filme sobre o mundo do rock, na visão de um garoto. Mas o filme não é só sobre um garoto. É sobre o período do começo dos anos 70, quando o idealismo do rock colide com a indústria.

Esse garoto, que o diretor já faz com quem nós nos identifiquemos quase instantaneamente, é William Miller (Patrick Fuqit em seu brilhante debute como o alterego de Cameron Crowe) o filho de uma professora universitária sufocadora e viúva que o fez pular três anos na escola e isso o fez ser isolado. Sua mãe também não aceita o demônio do rock n’ roll em casa. Ao completar 18 anos, Anita, a irmã mais velha de William, sai de casa para ser aeromoça. Ela disse que todas as razões dela para abandoná-los poderiam ser explicadas por Simon and Garfunkel na música America. Ao se despedir, ela segurou o irmãozinho pelos braços, olhou-o nos olhos e disse “um dia, você vai ser legal”. Ela também disse que ele olhasse debaixo da cama dele, pois o que tinha lá, iria libertá-lo. Era a herança dela, um cálice profano, uma mala repleta de discos vinil, no qual vemos Bowie, Dylan, Cream, Beach Boys, The Who, Led Zeppelin, Hendrix, entre outros. Para dar um ar ainda mais místico, ela pede que ele escute Tommy (LP do The Who) com velas acesas.

Por causa de sua solidão, ele fez desses discos os seus amigos íntimos. Não tardou para William começar a escrever sobre música para algumas revistas independentes locais. Ele admira e se espelha em Lester Bangs, o lendário (e real) crítico de rock e editor da revista musical Creem. Quando o editor está dando uma entrevista a uma rádio local na cidade de William, o garoto aproveita para conhecê-lo. Lester gosta do garoto e pede para ele fazer uma matéria sobre Black Sabbath.

Ele falha em entrar no show como jornalista, mas lá fora ele conhece Penny Lane e seu exército de Band-Aids (elas atestam que não são groupies, afinal, não transam com os rockstars, apenas pagam boquetes). Uma delas, Saphira, tem acesso ao back stage, abre a porta e grita “Do you remember laughter?” parafraseando Jimmy Page em uma versão ao vivo do Stairway to Heaven (como eu sei da referência? Ok, eu admito, sou nerd). Elas entram, ele não. Mas, ele próprio consegue fazer o seu caminho ao ganhar a simpatia do grupo Stillwater. William não só estava dentro daquele show, como havia adentrado os bastidores do mundo do rock.

William consegue cumprir a tarefa, escreve o artigo para a revista Creem, e a revista Rolling Stone se interessa por ele. Pede que ele faça uma matéria, e ele se propõe a escrever o perfil de uma banda de rock em ascensão (a Stillwater). A revista não tem a menor noção que o novo contratado tem apenas quinze anos, pois até o momento, eles só haviam mantido contato pelo telefone. Era o emprego que ele aspirava para vida. Ele, então, agarra sua caneta e caderno como se fossem amuletos e liga para o seu mentor Lester Bangs para pedir sábios conselhos. Lester pede que ele escreva a verdade nua e crua e que ele não fique amigo dos músicos, pois ele não é um cara legal e a única coisa que a banda poderia querer dele, é que ele escrevesse elogios, e é exatamente isso que está matando o rock n’ roll e o transformando em uma indústria.

Ele intenciona manter-se longe, (da banda e) da escola apenas por alguns dias, mas quando Russel (guitarrista da Stillwater) e o resto da banda começam a ficar acostumados com a presença dele (brincam com ele e o chamam de “O Inimigo” por ele ser um crítico de rock) ele começa a ficar mais e mais distante de casa. Em um momento de angústia, ele clama que tem que voltar para casa, mas Penny Lane diz que ele, na estrada, seguindo a música ESTÁ em casa.

William ama Penny Lane que ama Russel que tem uma esposa. Diria que Penny Lane (papel que foi escrito com uma extraordinária delicadeza e cuja atriz se inspirou na mãe de Liv Tyler para trazer a personagem à vida) é mais que uma groupie, é uma ninfa. Ela diz que diferente das tietes, ela não está lá para dormir com alguém famoso, mas sim por amor a música. Afeição tão grande que faz que ela ame cada singular nota, até da canção mais boba. Mas, no evoluir da turnê, ela confunde músico com música, e termina por ter seu coração partido. Em conseqüência, parte com coração de William, que parte o orgulho da banda ao fazer o que seu mentor sugeriu, contar a história assim como ela é.

E William estava lá. Presenciou a banda alcançar um hit single. Testemunhou os duelos de ego-titãs dos membros da banda. Viu um produtor grande tentar tirar a banda do homem que vem os acompanhando desde o início. Assiste a banda trocar o ônibus por um avião e por causa de um quase-acidente, escuta as mais terríveis confissões dos integrantes. E William escreve sobre isso. E a revista Rolling Stone adora. Mas, a banda desmente tudo, diz a Rolling Stone que William é apenas um garotinho tolo de 15 anos. A banda quebra o coração de William que quebra o coração de Penny Lane que quebra o coração de Russell. Metaforizando bem uruboros da música e a indústria. Como o próprio vocalista da banda menciona: “as bandas dizem que não querem ser famosas, não querem se vender. Led Zeppelin, Black Sabbath, todas bandas famosas, todas bandas excelentes. Me mostre alguém que diga que não quer ser famoso, que eu te mostro alguém sem coragem”. Mas a grande verdade é que a indústria só funciona quando os fãs da banda estão felizes.

A maravilhosa trilha sonora “vintage” é um elemento de extrema importância. Nessa película, a música não é só mais um adorno, um papel de parede sonoro. Ela é participante, dialoga com os personagens, e os personagens respondem. As músicas do Stillwater foram escritas por Crowe e sua mulher, Nancy Wilson. Mas, não confunda Quase Famosos com uma doce viagem nostálgica. É sobre desafios, sentimentos contraditórios, perigo e outras coisas que nos fazem virar de ponta-cabeça. Crowe triunfa por não mostrar apenas o lado bom do rock. Quase Famosos triunfa por nos sensibilizar. E no final do filme, Crowe, a banda, as groupies, eu e você estamos todos viajando juntos e esperando pela próxima turnê.

Casar ou não casar, eis a questão.

Vida de Solteiro

Título Original: Singles
Gênero: Comédia Dramática

Tempo de Duração: 99 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1992

Estúdio: Warner Bros. / Atkinson/Knickerbocker Productions
Distribuição: Warner Bros.
Direção: Cameron Crowe
Roteiro: Cameron Crowe
Produção: Cameron Crowe e Richard Hashimoto
Música: Paul Westerberg
Fotografia: Tak Fujimoto e Ueli Steiger
Desenho de Produção: Stephen J. Lineweaver
Direção de Arte: Mark Haack
Figurino: Jane Ruhm
Edição: Richard Chew

*****

Cameron Crowe se formou do Highschool quando tinha 15 anos de idade, três anos mais novo que a maioria dos estadunidenses. E então, passou a trabalhar para a revista Rolling Stones. Ele precisa de infusão de música como Popeye precisa de espinafre, e foi na direção de seu segundo filme (terceiro roteirizado por ele) que ele trouxe essa paixão para a grande tela.

Uma característica de Crowe é que os seus personagens crescem com ele. Se o seu primeiro filme conta o romance de um casal nas últimas férias de verão antes de irem para a universidade, em Vida de Solteiro ele narra as aventuras de seis jovens de vinte-e-poucos anos que moram em um complexo de apartamentos que tem forma de ferradura, no inicio dos anos 90, na chuvosa cidade de Seatle. Se você é consciente da cena musical dos anos 90, sabe que esse é o lugar certo e o momento exato para a explosão da música Grunge.

All my life / I'm waiting for somebody / Ah-ha-ha / come and take my hand

Logo na abertura do filme, ouvimos Paul Westerberg cantando os versos acima, da belíssima "Waiting for Somebody", enquanto os créditos correm soltos pontuados por imagens de Seatle. Logo mais, o filme não terá nem mesmo 5 minutos e outra música entrará em cena. É o início da era em que as trilhas sonoras marcam os filmes de Cameron Crowe.

Um prédio dividido em apartamentos super aconchegantes é o cenário e a vida de um grupo de amigos que têm pouca coisa em comum, além do endereço. A ambientalista Linda Powell (Kyra Sedgwick) e o engenheiro de tráfego Steve Dunne (Campbell Scott) formam o casal de solteiros convictos que se encontram em um bar de rock estão no dilema se devem ou não ter um relacionamento. Janet Livermore (Bridget Fonda) é a garçonete que trancou a faculdade de arquitetura e namorada fiel, porém infeliz de Cliff. Cliff Poncier (Matt Dillon) é o músico líder da banda fictícia Cietzen Dick que representa as bandas do momento. Eles têm um hit single chamado “Touch Me I'm Dick”. Cliff é o rockeiro neanderthal e engraçado que defende a natureza de um relacionamento aberto, enquanto ela é a garçonete depressiva e apaixonada que pensa em fazer uma cirurgia de aumento de seios para conquistar a fidelidade do namorado. Debbie Hunt (Sheila Kelley), a garota fixada com a idéia de achar o par-perfeito e um maitre que vive promovendo jantares gratuitos para seus vizinhos bacanas.

O filme dá um novo olhar sobre a saga das comédias românticas do tipo homem - e - mulher - se - procuram - se - encontram - vivem - felizes - para - sempre. Quando o casal romântico desse filme acaba, eles não ficam com mágoa mútua. Eles simplesmente passam de ser amantes para serem amigos – e frequentemente, é difícil notar a diferença. Esse é o tema de Vida de Solteiro: uma geração auto-protetora que enxerga o amor como um diferente estilo de amizade.

Os personagens são adolescentes super-crescidos, que continuam com a insegurança juvenil, trocando de parceiros como se amor fosse uma quadrilha de São João. Ao mesmo tempo em que são adultos e tem que arcar com as responsabilidades.

Nesse complexo de apartamentos, a pergunta a ser respondida é ficar solteiro é a solução para os nossos problemas? Uns diriam "sim", mas filmes como estes nos dizem que "não", não é a solução. A saída é evoluirmos como pessoas, passarmos a entender melhor as atitudes dos outros, sermos menos inflexíveis ao ponto de acharmos que só dói dentro de nós e de mais ninguém.

Vida de Solteiro recebeu publicidade por tratar da cena do grunge de Seatle sem necessariamente ser um documentário. os integrantes da banda fictícia Cietzen Dick (além de Matt Dillon) são ninguém mais ninguém menos que os músicos de verdade Eddie Vedder, Jeff Ament e Stone Gossard, galera de uma bandinha mais conhecida como Pearl Jam. E a música “Touch Me I’m Sick” do Mudhoney com algumas alterações da letra. Tim Burton também tem uma aparição como o diretor de vídeo clipes, e Crowe marca sua presença Hitchcockiana como sendo o repórter que entrevista a banda.

Reza a lenda que a película não contou com a presença de uma das bandas de maior influência na época, Nirvana, porque Kurt Cobain não se agradou com o filme. Pode-se não gostar do filme, assim como Kurt Colbain, mas uma coisa é certa: quer saber o que foi a cena grunge? Assista a Vida de Solteiro e saberá. E também como deixar passar a oportunidade de ver Matt Dillon e Bridget Fonda no início de suas carreiras?

O Iluminismo dentre os períodos Pós-Porky’s e Pré-American Pie

Digam o que quiserem

Título Original: Say Anything
Gênero: Comédia Romântica
Tempo de Duração: 100 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 1989
Estúdio: Twentieth Century Fox
Distribuição: Twentieth Century Fox
Direção: Cameron Crowe
Roteiro: Cameron Crowe
Produção: Polly Platt
Música: Anne Dudley, Richard Gibbs
Elenco: John Cusack, Ione Skye,John Mahoney, Lili Taylor, Amy Brooks, Joan Cusack

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Que eu gosto dos filmes de Cameron Crowe, é obvio. Não, é descarado. Nem por um segundo faço questão de esconder a colossal admiração que sinto pelo homem que trabalhou na Rolling Stones Magazine entrevistando lendas como Led Zepellin, Dylan, Cream, Bowie aos tenros 15 anos de idade. Hoje, ele dirige todos os filmes que escreve. E se você pensar que se melhorar estraga, aqui não é o caso, ele é casado com Nancy Wilson que faz parte da banda Heart e dá o primoroso toque das trilhas sonoras singulares de seus filmes.

Mas, não é por causa do meu tietismo que sustento que Digam o que quiserem é um dos melhores (da enorme linhagem de) filmes de romance adolescente de todos os tempos. Senão for o melhor (agora sim, isso é um pouquinho tietismo). Até porque na época em que assisti, nem me interessava em inteirar-me com quem estava por de trás das câmeras do mundo cinematográfico.

Já em 1989, o jovem Crowe tinha um perfeito (porém curto) histórico cinematográfico. Ele estreou nas telonas em 1982 quando escreveu o roteiro de Picardias Estudantis. Filme que levou ao estrelato atores como Nicolas Cage, Sean Penn e Eric Stolts. Apesar de que, naquele momento, nenhum de seus projetos tenham sido considerados blockbusters, com os dois filmes Crowe provou ser um atento estudioso da natureza das relações humanas. A pretensão dele é proporcionar à audiência uma experiência rica e recompensadora.

O filme de debute direcional de Crowe, em disparidade com os outros filmes do mesmo gênero, não é recheado de cruéis piadas sexuais, nudez, população lobotomizados e subenredos pobremente definidos. Enquanto o filme vai avançando, pinceladas de estórias familiares são pintadas na tela do cinema. Mais uma vez, são os detalhes que dão cor ao enredo: personagens inteligentes e bem desenvolvidos, situações acreditáveis, fazem com que haja o nosso investimento emocional quase sólido nas personagens e nas circunstâncias do desenrolar do trama. Não há nada que super-explore os hormônios, nem que seja complacente com as bobagens exorbitantes que se faz quando temos a pouca idade para usar como desculpa. Capturando as nuances do primeiro amor Digam o que quiserem conta com um sutil humor como realmente é a cuidadosa construção do caminho à vida adulta.

Digam o que quiserem é basicamente um drama de três personagens que atravessam um verão repleto de eventos. No final do filme, nós não só ficamos cativos dos protagonistas, como os conhecemos, gostamos deles e torcemos para que as coisas acabem bem.

Lloyd Dobler (John Cusack) é um cara normal que está prestes a se formar no colégio. Quando Digam o que quiserem inicia, ele está se arrumando para sua cerimônia de graduação. Apesar de ele ter um futuro aberto, seu pai deseja que ele se inscreva no exército, mas Lloyd não acredita que isso seja apropriado para ele. Lloyd sabe que ele não quer trabalhar com vendas, compras ou processos, e que a única coisa que ele gosta de fazer e que é bom, é Kickboxing. O amor colegial de Lloyd é a linda e popular oradora da classe, Diane Court (Ione Skye). Lloyd a ama platonicamente, mas depois da graduação ele cria coragem e a convida para sair. Para o deleite de nosso protagonista, ela aceita. Eles, então, se direcionam para a casa de um dos colegas de classe onde ocorre uma festa de despedida do Highschool. Lá, ela aprende uma valiosa lição: enquanto ela é popular e conhecidas por todos, ninguém a conhece de verdade. Ela também descobre que diferente dos outros, Lloyd parece a compreender e passa a se afeiçoar por ele, apesar deles não terem virtualmente nada em comum.

Os pais de Diane são divorciados (o que era raro na época) e ela mora com o seu pai James (John Mahoney), um homem de negócios que gerencia um asilo. Ele tem um enorme apreço pela filha e mostra isso com presentes caros. As expectativas dele sobre o futuro dela a deixam muito pressionada. Quando ela recebe uma prestigiosa bolsa de estudos na Inglaterra, ele fica mais feliz do que ela. Ele desconfia profundamente de Lloyd, especialmente quando o jovem descreve sua aspiração de carreira sendo “passar o maior tempo possível com a sua filha”. E, com a chegada de dois fiscais da fazenda, o mundo de James vira de ponta cabeça.

O que faz Digam o que quiserem tão excepcional? Fácil, a qualidade da escrita. A intimidade com que a máquina datilográfica (ou caneta) de Crowe nos conecta com Lloyd e Diane. Crowe presta atenção nos pormenores, os microscópicos, como o momento em que Lloyd pausa nervosamente antes de digitar o último número do telefone de Diane ao ligar para convidá-la para sair pela primeira vez.

Teria alguém mais apropriado e para uma empatia instantânea da audiência com o personagem de Lloyd do que John Cusack? Cusack investe tal sinceridade ao retratar Lloyd que se torna impossível não torcer para que ele consiga a garota. Ele é o clássico deslocado, aquele deslocamento que nós todos sentimos algumas vezes. Ele é irresistível POR CAUSA de suas falhas e não apesar delas. Ione Skye é completamente acreditável como a garota doce e inteligente, que de repente, quer aprender a se divertir por ter dado conta que não tem apreciado a sua juventude. Apesar de não existir apelação sexual no filme, a química entre os dois está presente. O ator veterano dá o sentido de multidimensionalidade para o papel de pai opositor que frequentemente toma estaturas idióticas nesse tipo de filme. Embora o pai não goste de Lloyd, ele não tenta fazer estratégias maquiavélicas para afastar a filha, tampouco se torna em um bruto sem coração.

Digam o que quiserem é uma comedia adolescente romântica, mas ela procura manter proporções reais, ao invés da fantasia apresentada em outros filmes do mesmo gênero. O filme não é intelectual, mas inteligente. Ele não espera nada da audiência além da vontade do espectador de se de se desligar de seu mundo por umas duas horas e prestar atenção nesse casal. E a despeito do filme ter quase duas décadas, o seu tema é tão atual hoje quanto no dia que entrou em cartaz.